A leitura de uma carta emocionante durante a sessão da Câmara de Guaraí, nesta terça-feira, 26 de maio, ampliou a repercussão do caso envolvendo uma trabalhadora que acredita ter sido demitida após revelar um diagnóstico tardio de autismo. O texto foi apresentado pela vereadora Karina Sacramento (União Brasil) e provocou reflexões sobre inclusão e respeito dos neurodivergentes.
Na carta, a mulher, que prefere não se identificar, relata que passou grande parte da vida tentando se adaptar ao que consideravam “normal”. Já adulta, após enfrentar incômodos que não conseguia explicar, realizou avaliação e recebeu o diagnóstico de Transtorno do Espectro Autista (TEA). Segundo ela, o processo trouxe compreensão sobre sua forma de pensar, agir, aprender e se relacionar.
O relato também aborda a experiência em um novo emprego, onde afirma ter acreditado que seria acolhida ao explicar seus métodos de organização e concentração. Conforme descreve, após revelar características relacionadas ao autismo, passou a se sentir excluída e incapaz. A carta menciona sentimentos de inadequação e o retorno de medos que carregava desde a sua infância.
O caso ganhou repercussão após reportagem publicada pelo Guaraí Notícias no último dia 21 de maio, quando a trabalhadora afirmou acreditar ter sido desligada do emprego após compartilhar o diagnóstico. Durante a sessão legislativa, a leitura do texto gerou manifestações de apoio e reforçou a importância dos debates sobre acessibilidade, empatia e inclusão no mercado de trabalho.
Leia a carta completa:
A vida inteira me senti diferente e fui apontada como diferente. Com muito custo, tentei ser igual e acompanhar as pessoas que me orientavam a ser “normal”.
No decorrer da vida, estudei, me formei e entrei no mercado de trabalho. Já adulta, após muitos incômodos que eu não sabia explicar, fiz uma avaliação neuropsicológica, e todas aquelas dúvidas se esclareceram. Eu não era esquisita, apenas tinha uma forma diferente de ver o mundo, de me expressar e interesses diferentes dos que o mundo considerava normais.
Consegui me enxergar e explicar para minha família aquilo que nem eu mesma conseguia entender no início. Pude ser vista dentro de casa e acolhida por quem eu era. Também recebi apoio e ouvi que poderia chegar aonde quisesse, porque consegui ir longe mesmo sem me entender completamente.
Enfim, lembrar de como descobri o autismo me faz revisitar todo o meu processo. Jamais conseguiria regredir, pois sei das vitórias que conquistei e das lutas internas que travei para conseguir ocupar e conquistar espaços.
Quando ingressei em um novo trabalho, fiquei muito animada, porque iria exercitar meu hiperfoco e só precisava cumprir alguns “rituais”. Chamo assim porque são processos que sigo para que meu cérebro consiga dar o seu melhor, para que eu não perca o foco e para que não venham as tremedeiras ou o choro que, às vezes, insistem em aparecer quando não consigo finalizar as etapas da maneira certa. Tudo isso para conseguir entregar o melhor naquilo em que sou boa.
Quando fui questionada sobre como realizava as tarefas, achei que estava segura para explicar meu processo e que seria acolhida. Mas, por conta do meu processamento mais lento, só consegui compreender a resposta que recebi bem depois. E, quando finalmente processei a informação, a ficha caiu. Me senti inútil, excluída e incapaz. Me senti exatamente tudo aquilo que lutei para não ser durante 34 anos.
Aqueles medos da infância voltaram, e os pensamentos foram: “E agora? Como vou me consertar para caber? Será que vou ter que me conformar em não caber? O que vou fazer se eu não couber? Como vou contar para minha família que não consigo ser suficiente?”
Espero encontrar respostas para algumas dessas perguntas. E espero que exista um mundo melhor, onde pessoas como eu nunca precisem passar pela situação que passei, e onde sejamos respeitados pela forma como somos, aprendemos e nos desenvolvemos.
Que possamos não apenas caber, mas pertencer aos lugares onde quisermos estar.








