Uma trabalhadora procurou o Guaraí Notícias para relatar uma situação que expõe o preconceito enfrentado por pessoas diagnosticadas com Transtorno do Espectro Autista (TEA). A mulher pediu que seu nome não fosse revelado, porém apresentou laudo confirmando a condição, além de outras informações. Mãe de uma criança pequena, ela afirma possuir facilidade em atividades de organização, sistemas e informática, além de uma nítida habilidade com escrita.

 

Segundo o relato, o diagnóstico de autismo nível 2 de suporte ocorreu já na fase adulta. A trabalhadora contou que iniciou um novo emprego em janeiro deste ano e optou por não informar a condição por receio de preconceito. Em abril, após ser questionada sobre a quantidade de rascunhos que fazia, decidiu revelar que era neurodivergente e que escrever ajudava a manter o foco e prevenir crises.

 

Ainda conforme a mulher, a reação do superior teria sido negativa. Ele chegou a dizer que se soubesse do diagnóstico, “o resultado do processo seletivo teria tomado outro rumo”. Dois dias depois, foi chamada para uma reunião e demitida sob alegação de dificuldades financeiras enfrentadas pela empresa. O contratante garantiu que o assunto não havia sido compartilhado com a equipe.

 

A trabalhadora disse que, inicialmente, deixou o local sem suspeitar de discriminação. Entretanto, dias depois, viu outra pessoa assumir a vaga e isso reforçou a percepção de que a demissão teria relação direta com a condição neurológica. “Nunca imaginei que ter um laudo e um processamento diferente fosse motivo para ter minha capacidade colocada em questão”, desabafou.

 

Orientação importante

 

Especialistas apontam que, em situações semelhantes, o ideal é guardar mensagens, anotar datas, falas e acontecimentos, além de buscar orientação jurídica profissional. Pessoas com TEA possuem proteção legal contra discriminação no ambiente de trabalho e, dependendo das provas apresentadas, a demissão após a revelação do diagnóstico pode ser questionada judicialmente.

 

Leia a íntegra do relato

 

Boa noite!

Sei que o site não é um espaço para desabafos, mas acompanho o trabalho de vocês e sei o quanto lutam para dar voz àqueles que muitas vezes não conseguem ser ouvidos.

Sou autista nível 2 de suporte e só fui diagnosticada na fase adulta. Durante toda a vida tentei me encaixar, estudei e sempre trabalhei, mesmo enfrentando desafios que só passei a compreender após o diagnóstico.

Em janeiro troquei de emprego e optei por não informar minha condição, justamente por medo do preconceito e de ser vista como menos capaz. Porém, no dia 12/04, fui questionada sobre o motivo de fazer tantos rascunhos, já que isso estaria atrapalhando minha gestão de tempo. Então criei coragem para explicar que sou autista e que escrever me ajuda a manter o foco e prevenir crises.

Infelizmente, a resposta do meu supervisor foi que ele estava “profundamente chateado” porque, segundo ele, eu havia “escondido” a informação. Ele ainda afirmou que, se soubesse da minha condição durante a entrevista, o resultado do processo seletivo “teria tomado outro rumo”.

No dia 14/04, fui chamada para uma reunião e demitida. A justificativa apresentada foi que a empresa estaria passando por um momento difícil financeiramente e precisaria reduzir o quadro de funcionários. Disseram que eu não precisaria cumprir aviso prévio e que pagariam a multa rescisória. O supervisor ainda fez questão de reforçar que a decisão não tinha relação com meu autismo e que não havia comentado o assunto com a equipe, já que seria algo pessoal meu.

Naquele momento, saí sem entender exatamente o que havia acontecido, principalmente porque eu já havia passado do período de experiência e, segundo eles mesmos, antes de saberem da minha condição não existia qualquer previsão de demissão.

Minha surpresa veio na terça-feira, dia 19/04, quando vi a nova funcionária que assumiu minha vaga saindo da empresa. Foi naquele momento que percebi que minha demissão provavelmente aconteceu por causa do meu autismo.

Nunca imaginei que ter um laudo e um funcionamento diferente pudesse fazer com que minha capacidade fosse colocada em dúvida.