Opinião

SALVEM NOSSAS CRIANÇAS: O SILÊNCIO TAMBÉM MACHUCA

Foto de Leiliane da Costa Lima

Desde cedo, aprendemos que a família é o lugar onde encontramos amor, cuidado e proteção. É isso que, de fato, ela deveria representar para toda criança. No entanto, nem sempre essa é a realidade. Acreditar que uma criança está segura apenas por estar junto de sua família pode nos impedir de enxergar situações de violência, negligência e abuso que acontecem justamente dentro de casa. Quando romantizamos a ideia de que toda família protege, corremos o risco de silenciar o sofrimento de muitas crianças, tornando invisíveis violações que precisam ser reconhecidas e enfrentadas.

 

As crianças que vivem em um ambiente familiar violento não experimentam apenas dor física. Muitas vezes, carregam sentimentos como medo constante, sem saber quando ocorrerá a próxima agressão, discussão ou humilhação; insegurança, pois o lugar onde a criança deveria se sentir protegida torna-se imprevisível, fazendo com que ela não saiba em quem confiar; solidão, já que muitas acreditam que não serão acreditadas se contarem; culpa, pois é comum que pensem que são responsáveis pela violência que sofreram; e confusão, quando quem machuca é a mesma pessoa que também demonstra carinho, fazendo com que a criança tenha dificuldade de entender que aquilo é violência.

 

Quando um adulto agride outro adulto, chamamos isso de violência. Quando alguém maltrata um animal, a indignação é imediata. Mas, quando a vítima é uma criança, quantas vezes a agressão é chamada de "educação"? Por que um tapa em uma criança ainda é visto como forma de corrigir, enquanto a mesma atitude contra um adulto seria considerada inaceitável? Será que a violência muda de nome apenas porque a vítima é pequena, vulnerável e depende de quem a agride?

 

A Constituição Federal é clara ao afirmar que crianças e adolescentes devem ser colocados a salvo de toda forma de violência, negligência e opressão. No papel, a proteção é absoluta. Mas a realidade nos convida a uma pergunta incômoda: será que a existência da lei, por si só, é suficiente para proteger quem sofre em silêncio? Talvez o problema não seja a falta de leis, mas a naturalização de comportamentos que jamais deveríamos aceitar contra quem mais precisa de proteção.

 

De que adianta uma legislação tão avançada se nós, adultos, insistimos em não enxergar os sinais? Quantas vezes o choro foi interpretado como "birra", o medo como "timidez", o isolamento como "fase" ou os hematomas como "coisas de criança"? Quantas situações de violência continuam invisíveis porque ainda acreditamos que, por estar com sua família, uma criança está necessariamente protegida?

 

A violência contra crianças e adolescentes constitui um grave problema social no Brasil. Dados oficiais mostram que a maior parte das situações de violência ocorre no ambiente familiar ou é praticada por pessoas próximas à vítima. As leis são indispensáveis, mas elas não entram sozinhas nas casas, não escutam o silêncio de uma criança e não interrompem ciclos de violência sem a ação das pessoas.

 

A proteção só deixa de ser um princípio jurídico e se torna uma realidade quando adultos assumem a responsabilidade de observar, acolher, escutar e agir. Fechar os olhos diante de sinais de sofrimento não preserva a família; apenas prolonga a dor de quem mais precisa de proteção.

 

Enquanto insistirmos em acreditar que toda família protege apenas por ser família, continuaremos deixando crianças invisíveis dentro dos próprios lares. A verdadeira proteção começa quando temos coragem de enxergar o que muitos preferem ignorar. Nenhuma tradição, nenhum vínculo de sangue e nenhum discurso sobre a idealização da família podem valer mais do que a infância de uma criança.

 

Se queremos uma sociedade mais justa, precisamos abandonar o conforto da omissão e assumir o compromisso da proteção. Porque uma criança não precisa apenas de uma família; ela precisa de uma família que a ame, a respeite e a mantenha segura. Salvar nossas crianças começa quando deixamos de proteger o silêncio dos adultos e passamos a proteger a voz de quem ainda não consegue se defender sozinho.

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