Opinião

O QUE ACONTECE QUANDO NEGAMOS VIDA ÀS MULHERES DO AFEGANISTÃO

Foto de Giovana Evangelista da Silva

Há uma tragédia acontecendo em pleno século XXI, diante dos nossos olhos, todos os dias, todas as horas, cada segundo que passa. Uma tragédia tão grande, tão profunda, tão cruel e tão silenciosa que parece impossível que ainda exista em qualquer lugar que se diga civilizado, humano ou justo. E ela se passa bem ali, no coração da Ásia, no Afeganistão. Lá, hoje, ser mulher não é uma condição: é uma sentença. É viver sob regras que não foram feitas para organizar a convivência, nem para preservar valores, nem para proteger ninguém, mas sim para sufocar, para diminuir, para apagar por completo qualquer sinal de dignidade, de voz, de escolha, de sonho, de alegria e de futuro. E o pior de tudo, o que mais nos envergonha como humanidade: estamos deixando que isso aconteça como se não fosse problema nosso. Como se a dor de uma pessoa não doesse em toda a gente. Como se a dignidade humana tivesse fronteiras, tivesse preço, tivesse exceções.

 

Pare um minuto, por favor. Pare tudo o que está fazendo. Respire fundo. Feche os olhos e tente colocar-se no lugar delas. Tente sentir o que é viver assim, dia após dia, sem esperança, sem saída, sem ninguém para ouvir.

 

Imagine que você é uma menina de sete, oito anos. Você acorda cedo, lava o rosto com água fria, veste a sua melhor roupa, pega o seu caderno amassado e o seu único lápis, e corre feliz para a escola, como tantas outras crianças do mundo. Você sonha em aprender a ler, para entender as histórias que sua avó conta. Quer aprender a escrever, para contar a sua própria história. Quer aprender matemática, para saber quanto custa o pão da família. Quer aprender ciências, para entender como as flores nascem, como o sol brilha, como o corpo funciona. Você quer ser alguém. Quer fazer a diferença. E quando chega à porta da escola, um guarda estende o braço forte e te impede de passar. Ele diz, com toda a frieza do mundo, sem olhar nos seus olhos cheios de lágrimas: “Não pode entrar. Aqui só entram meninos. O estudo não é coisa para meninas. Volte para casa: o seu lugar é onde ninguém vê você.”

 

E você não entende. Você olha para trás e vê outras meninas, da sua idade, com os mesmos cadernos apertados contra o peito, com os olhos vermelhos, paradas, sem saber o que fazer. Você vê os meninos passando, rindo, empurrando-se, entrando alegremente, e você fica ali, sozinha, sem saber por que você é diferente, sem saber por que um direito que é de todos foi tirado só de você. E com os dias, com os meses, com os anos, você descobre que não é só a escola. Não é só o estudo. É o direito de saber quem você é. É o direito de pensar por si mesma. É o direito de escolher o que quer ser quando crescer. Tudo isso lhe foi roubado antes mesmo que você tivesse idade para entender o que estavam tirando. Roubaram o futuro antes que ele pudesse começar.

 

Hoje, no Afeganistão, mais de quatro milhões de meninas e jovens vivem exatamente esse pesadelo. Elas são barradas na porta de todas as escolas, públicas e privadas, em todas as cidades, em todas as províncias. Não podem cursar o ensino fundamental completo, nem o ensino médio, nem qualquer universidade, nem cursos técnicos, nem nada que lhes abra a mente. Nenhuma instituição de ensino abre as portas para elas. Muitas estavam no último ano de medicina, prontas para salvar vidas de outras mulheres que ninguém quer atender. Outras estavam estudando direito, para defender quem não tem voz, quem é oprimido. Eram professoras, engenheiras, jornalistas, arquitetas, economistas, artistas e receberam a ordem de parar imediatamente, de nunca mais voltar às salas de aula, de nunca mais abrir um livro para estudar. Professoras foram demitidas em massa, proibidas de dar aulas até mesmo em casa. Salas ficaram vazias. Bibliotecas fecharam as portas. E o que é mais doloroso de tudo: muitas crianças que estão nascendo hoje nem sequer vão saber que estudar é um direito delas. Elas vão crescer achando que a ignorância é o destino natural de quem nasce menina.

 

Ao proibir a educação das meninas, os que governam não estão apenas fechando escolas: estão matando a inteligência de uma geração inteira. Estão condenando milhões de pessoas à escravidão da ignorância. Estão roubando não só o futuro delas, mas o futuro de todo o país. Porque uma nação não cresce, não se desenvolve, não tem paz, quando apaga metade da sua gente. Um país que apaga as suas mulheres é um país que apaga metade da sua alma.

 

Agora, cresça um pouco mais nessa imaginação. Agora você é uma jovem mulher, que sobreviveu a essa infância sem luz. E descobre que não há lugar nenhum, em todo o seu país, onde você possa estar livre. Não pode sair na rua sem estar coberta da cabeça aos pés, com o rosto escondido por um véu, sem poder mostrar nem mesmo os olhos. Não pode falar alto, não pode rir abertamente, não pode andar com passos largos, não pode olhar para os lados. Não pode ir ao parque ver as flores, não pode se sentar na grama, não pode correr atrás de uma borboleta, não pode ir ao riacho se refrescar no calor forte. Não pode ir à academia cuidar do corpo, não pode ir ao banheiro público, não pode ir ao estádio assistir a um jogo, não pode visitar o túmulo da sua mãe ou do seu pai para dizer saudade. Até os espaços mais simples, mais naturais, mais humanos lugares que pertencem a todos foram proibidos para você. Até o ar livre lhes foi negado.

 

E não pode viajar. Nem mesmo para a cidade vizinha. Nem mesmo para visitar uma avó que está morrendo. Nem mesmo para fugir de um perigo que ameaça a sua vida e a dos seus filhos. Você não pode sair de casa, não pode ir a lugar nenhum, se não estiver acompanhada por um parente homem adulto o pai, o irmão, o marido, até mesmo um filho pequeno se for o único homem da família. Se ele disser “não”, você fica. Se ele estiver doente, você fica. Se ele não tiver dinheiro, você fica. Se ele morrer, você fica ainda mais presa, sem ninguém que te acompanhe, sem ninguém que te defenda. A sua liberdade não pertence a você. Você não é dona nem dos próprios passos.

 

Agora imagine outra coisa: você estudou anos, lutou muito, se formou, trabalhou com todo o amor e dedicação do mundo. Você era médica, salvando mulheres e crianças que ninguém mais queria tratar. Era professora, ensinando não só matérias, mas coragem e dignidade. Era policial, protegendo a sua comunidade da violência. Era jornalista, contando a verdade que ninguém queria ouvir. Era deputada, lutando por leis mais justas, por um país melhor para todos. E de um dia para o outro, batem à sua porta e dizem que você não serve mais. Que não pode mais entrar no hospital, na escola, na delegacia, na redação, no parlamento. Que o seu lugar é dentro de quatro paredes, trancada, invisível, sem ver ninguém fora da família. Todo o seu esforço, todo o seu saber, todo o seu amor, todo o seu valor jogado fora, como se nunca tivesse existido, como se você não tivesse feito nada de importante na vida. Eles não querem o seu trabalho: querem o seu silêncio.

 

Hoje, as mulheres afegãs desapareceram completamente da vida pública. Não há nenhuma mulher em nenhum cargo de governo, em nenhuma autoridade, em nenhum espaço de decisão. Não podem apresentar notícias, não podem dar entrevistas, não podem participar de reuniões públicas. Foram proibidas de aparecer em fotografias, em pinturas, em outdoors, em qualquer imagem que seja vista em público até mesmo desenhos de bonecas ou de flores que pareçam pessoas são cobertos ou apagados. Elas estão sendo literalmente apagadas da paisagem, da memória e da história do próprio país. Como se milhões de mulheres que construíram, lutaram, sofreram e viveram ali nunca tivessem feito parte daquele povo. Como se elas nunca tivessem existido.

 

E o que acontece dentro de casa, lugar que deveria ser o mais seguro do mundo? Se você levar tapas, empurrões, pontapés, ameaças de morte, humilhações todos os dias. Se for agredida fisicamente, se for ferida, se for tratada como uma coisa, como uma propriedade, e não como uma pessoa humana. A lei imposta hoje diz que isso quase não conta como crime. A violência doméstica só é punida se houver ossos quebrados, feridas profundas ou danos permanentes. Tapas, palavras que matam a alma, ameaças, isolamento tudo isso é considerado “assunto de família”, e ninguém pode interferir. Se você tentar denunciar, muitas vezes é punida você mesma, acusada de mentir ou de desonrar a família. Se quiser se separar de um marido violento, é quase impossível. E se por milagre conseguir, perde os filhos, perde a casa, perde todos os seus bens, fica sem nada, sem ninguém, sem para onde ir. Para elas, a justiça é um privilégio que não existe.

 

Casamento infantil virou algo comum, quase normalizado. Meninas de 10, 11, 12 anos são entregues a homens de 30, 40, 50 anos, muitas vezes desconhecidos. Muitas vezes para pagar uma dívida que o pai contraiu com outra família. Para selar uma paz entre clãs que brigaram. Ou simplesmente porque “não há o que fazer com ela”, porque a família não tem dinheiro para criá-la. Elas não têm direito a dizer “não”. Não têm direito a escolher quem amar, quando se casar, se querem ser mães. Muitas morrem cedo, no primeiro parto, porque o corpo ainda não está formado para isso. Muitas adoecem, definham, perdem a alegria de viver, vivem e morrem sem nunca ter conhecido o que é liberdade, nem o que é ser amada de verdade, sem medo e sem obrigação. Transformam meninas em esposas antes que elas aprendam o que é ser pessoa.

 

Muitas pessoas, quando ouvem tudo isso, dizem calmamente: “Mas é a cultura deles”, “São os costumes locais, temos que respeitar”. Mas essa é uma mentira cruel, que inventamos apenas para acalmar a nossa própria consciência. Para que não precisemos sentir dor, para que não precisemos nos sentir responsáveis para que não precisemos fazer nada. Isso não é cultura: é opressão. Não é tradição: é medo. Não é religião: é uso desonesto da fé para dominar e humilhar. E isso não é aceito em nenhum outro país muçulmano do mundo, nem pela maioria dos estudiosos da religião, nem pelo povo afegão comum. E certamente não é o que as mulheres afegãs escolheram: elas lutaram décadas, arriscaram a vida, perderam pais, irmãos, filhos para conquistar o direito de estudar, de trabalhar, de ser livres. Elas não querem voltar a ser sombras. Ninguém quer ser sombra.

 

E essa opressão não machuca só elas. Machuca todo o Afeganistão, machuca toda a humanidade. Sem médicas, milhões de mulheres não conseguem atendimento de saúde muitas se recusam a ser examinadas por homens, por vergonha ou por proibição cultural, e acabam morrendo em casa, sofrendo sozinhas. A mortalidade materna, que já era uma das mais altas do mundo, vai aumentar ainda mais, levando milhares de mãos embora e deixando milhares de crianças órfãs. Sem professoras, milhões de crianças não aprendem direito, não têm referências de mulheres fortes, não têm quem cuide do seu crescimento com carinho. Sem trabalhadoras, a economia para a fome aumenta, a pobreza se espalha por todas as casas. Sem metade da sua gente contribuindo, pensando, criando, construindo, o país está condenado a ficar para trás, a definhar, a perder qualquer chance de paz e de desenvolvimento. Nenhuma nação vence quando aprisiona as suas mulheres.

 

E os meninos? Eles também são vítimas dessa tragédia. Eles crescem vendo a mulher como alguém inferior, sem direitos, sem valor, que existe apenas para obedecer. Aprendem que podem mandar, dominar, calar, bater sem serem punidos. Aprendem que respeito é algo que não se deve a metade das pessoas. E isso destrói as famílias, destrói as relações, destrói a base de toda a sociedade. Homens que aprendem a humilhar nunca aprendem a amar.

 

Mas o que mais dói, o que mais assusta, é o silêncio do mundo. O jeito como essas notícias passam na televisão, ficam ali por alguns minutos, e depois desaparecem. Como se fosse uma história que já acabou, e não o pesadelo que continua dia após dia, que piora a cada novo decreto, que rouba mais uma vida a cada instante. Como se milhões de meninas, mulheres, mães e avós não valessem o nosso tempo, a nossa atenção, a nossa solidariedade. Como se a dignidade delas valesse menos só porque elas nasceram longe daqui.

 

Isso não é assunto só delas. Diz respeito a cada um de nós. Diz respeito a você, que tem uma filha, uma irmã, uma mãe, uma amiga. Diz respeito a nós, aqui no Brasil, em Guaraí, em qualquer lugar do mundo. Porque quando aceitamos que em algum lugar uma pessoa valha menos só por ser mulher, estamos dizendo que nenhuma mulher está segura em lugar nenhum. Estamos dizendo que os direitos humanos não são universais, que valem aqui, mas não lá. Que a justiça tem fronteiras. E isso abre caminho para que o preconceito, a violência e a indiferença cresçam também aqui, na nossa rua, na nossa cidade, na nossa casa.

 

O que está acontecendo no Afeganistão é um aviso muito forte para todos nós. É a prova de que nenhum direito é conquistado para sempre. Que tudo o que temos e escola, trabalho, liberdade de ir e vir, respeito, direito de escolha precisa ser cuidado, defendido, valorizado todos os dias. Que se nos calarmos, se virarmos o rosto, um dia podemos ser nós mesmos a perder tudo.

 

Por isso, não podemos esquecer delas. Não podemos deixar que sejam apenas uma lembrança distante, uma notícia antiga que ninguém mais lembra. Não podemos deixar que o silêncio cubra a sua dor e apague a sua história. Elas não pedem a nossa pena: pedem que não as esqueçamos. Pedem que falemos delas. Pedem que compartilhemos o que sabemos, para que mais pessoas parem para pensar, para sentir, para entender que nenhuma vida é descartável, nenhuma pessoa deve viver como prisioneira, e a dignidade é um direito de todos, sem exceção.

 

Porque onde a mulher é presa, ninguém é verdadeiramente livre. Onde a mulher é calada, ninguém ouve a verdade toda. Onde a mulher é apagada, todo o povo fica menor, mais pobre, mais escuro e mais triste.

 

Leia com calma. Pense com carinho. Sinta a dor que está ali, longe, mas que é humana, que é igual à sua, que merece o mesmo respeito. E compartilhe. Porque a maior força contra a opressão não é a arma: é a voz de quem não esquece, de quem diz bem alto e sem medo: “Isso não é certo. E nós não vamos deixar que continue acontecendo.”

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