Nenhum pai ou mãe cria um filho imaginando que ele será morto de forma violenta ou autor de um crime assim. Por trás de cada vítima e autor existe uma família e uma história. Isso não significa ignorar escolhas erradas, envolvimento com crimes ou responsabilidades individuais. Significa apenas reconhecer que ninguém nasce destinado à criminalidade.
Muitos homicídios estão ligados ao tráfico, às facções, às dívidas, às vinganças e às disputas territoriais. Não é correto afirmar que todos esses casos começam dentro de lares desestruturados, mas é evidente que a ausência de proteção familiar, diálogo, acompanhamento e oportunidades aumenta a vulnerabilidade de crianças e adolescentes que crescem convivendo com esta realidade.
Quando não encontram referências dentro de casa, muitos jovens passam a procurá-las fora. Buscam pertencimento, respeito, dinheiro, proteção ou simplesmente alguém que pareça disposto a ouvi-los. É justamente nesse vazio que o crime organizado costuma agir. Ele oferece uma falsa sensação de acolhimento, abre portas rapidamente e cobra depois um preço alto demais.
Não se trata de romantizar criminosos ou amenizar culpas. Quem comete crime deve responder por ele. Entretanto, combater apenas as consequências nunca será suficiente. Prender não resolve o problema que começou muito antes. A prevenção exige famílias apoiadas, escolas fortalecidas, assistência social presente, atendimento psicológico acessível, políticas públicas para juventude, esporte, cultura, emprego e qualificação.
Também é preciso parar de tratar toda família vulnerável como culpada. Há mães e pais que pedem ajuda durante anos, enfrentam dependência química, violência doméstica, abandono escolar, transtornos mentais e envolvimento dos filhos com grupos criminosos, mas encontram portas fechadas, burocracia ou atendimento insuficiente. Quando o Estado aparece, quase sempre já chegou tarde.
A violência não começa no momento do disparo. Ela pode começar anos antes, na falta de cuidado, de limites, de oportunidades e de apoio. Enfrentar essa realidade exige responsabilidade individual, mas também compromisso coletivo. Porque, no fim, nenhuma mãe deveria receber a notícia de que perdeu um filho para o crime, seja como vítima, seja como autor.
