Opinião

O VALOR E A RESPONSABILIDADE DO VOTO

Foto de Ivo Ricardo Lozekam

Em um verdadeiro regime democrático, os assuntos mais importantes passam pelo voto, isto é, pela escolha livre dos eleitores. Em 2026, vamos eleger 513 deputados federais, 1.035 deputados estaduais, 24 deputados distritais, 27 governadores, 54 senadores e o presidente da República.

 

Com o voto, entregaremos a esses representantes a responsabilidade de tomar decisões que envolvem trilhões de reais em recursos públicos, dinheiro que, em grande parte, sai do nosso bolso por meio dos impostos que todos pagamos.

 

Para esta eleição, o Fundo Especial de Financiamento de Campanha (FEFC), conhecido como Fundo Eleitoral, contará com aproximadamente R$ 4,96 bilhões. São recursos públicos destinados ao financiamento das campanhas eleitorais e distribuídos aos partidos políticos de acordo com critérios estabelecidos pela legislação.

 

Todo dinheiro público provém de algum lugar. No caso dos recursos destinados ao Fundo Eleitoral, a origem está no Orçamento da União, abastecido principalmente pela arrecadação de tributos pagos pela sociedade. São impostos e contribuições presentes no consumo, na renda, no patrimônio e em diversas atividades econômicas.

 

Em 2025, o Impostômetro, mantido pela Associação Comercial de São Paulo (ACSP), registrou aproximadamente R$ 3,98 trilhões em impostos, taxas e contribuições arrecadados no Brasil.

 

É importante, entretanto, não confundir esse valor com a carga tributária em relação ao Produto Interno Bruto (PIB). Segundo estimativa do Tesouro Nacional, a carga tributária bruta brasileira correspondeu a aproximadamente 32,4% do PIB em 2025.

 

Existe ainda outra maneira de observar o peso dos impostos na vida dos brasileiros. Estudo do Instituto Brasileiro de Planejamento e Tributação (IBPT) estimou que, em 2025, o brasileiro comprometeu o equivalente a 40,82% de sua renda média anual com tributos. Pela metodologia utilizada pelo instituto, foram necessários 149 dias de trabalho, ou aproximadamente quatro meses e 29 dias, somente para pagar impostos, taxas e contribuições.

 

São números diferentes, calculados por metodologias diferentes, mas que ajudam a dimensionar o peso dos tributos sobre a sociedade.

 

Ao elegermos nossos representantes pelo voto, também lhes damos poder para participar das decisões sobre como parcela significativa desses recursos será aplicada. Deputados e senadores discutem e aprovam leis, fiscalizam o Poder Executivo e participam diretamente da elaboração e aprovação do orçamento público.

 

Apesar do elevado volume de recursos arrecadados, a situação fiscal brasileira continua sendo motivo de preocupação. União, estados e municípios enfrentam realidades fiscais distintas, com diferentes níveis de endividamento, despesas obrigatórias e capacidade de investimento.

 

Também é necessário distinguir conceitos. Déficit primário, déficit nominal, resultado orçamentário e endividamento público não significam exatamente a mesma coisa. Portanto, dizer simplesmente que todo o poder público “gasta mais do que arrecada” seria uma generalização inadequada.

 

O fato é que pagamos uma quantidade expressiva de tributos e, naturalmente, esperamos uma contrapartida compatível na prestação dos serviços públicos.

 

Precisamos do serviço público. Todos precisamos de bons policiais, juízes, professores, médicos e tantos outros profissionais, e queremos que sejam valorizados e adequadamente remunerados. Como cidadãos e pagadores de impostos, sentimos indignação quando vemos professores, policiais, médicos ou outros servidores trabalhando em condições precárias ou recebendo remunerações incompatíveis com suas responsabilidades.

 

Muitos desses profissionais exercem funções indispensáveis para a sociedade e merecem reconhecimento.

 

Por outro lado, todos nós, brasileiros, independentemente de gênero, orientação, raça ou classe social, compartilhamos uma expectativa básica: receber serviços públicos de qualidade. Queremos acesso ao saneamento básico, vagas em creches para os filhos enquanto os pais trabalham, atendimento digno nos hospitais e postos de saúde, segurança pública, educação, infraestrutura e tantos outros serviços essenciais.

 

É justamente por isso que precisamos discutir também o custo da estrutura estatal.

 

A máquina pública envolve despesas com servidores, prédios, veículos oficiais, equipamentos, sistemas, combustíveis, comunicação, assessorias, secretarias, cargos de direção e diversas outras estruturas necessárias ao funcionamento do Estado.

 

É incorreto, entretanto, afirmar que 60% de tudo o que o país arrecada é destinado simplesmente à manutenção dessa máquina e que os 40% restantes ficam disponíveis para investimentos. As contas públicas são muito mais complexas e incluem, entre outras despesas, Previdência, saúde, educação, assistência social, segurança, pagamento de juros, transferências, custeio administrativo e investimentos.

 

É justamente nessa complexidade que surge uma questão fundamental: o dinheiro público está sendo aplicado da maneira mais eficiente possível?

 

Precisamos de construção e duplicação de estradas, asfaltamento, iluminação pública, saneamento, hospitais, escolas, universidades, transporte público, consultas, medicamentos e inúmeros outros investimentos e serviços.

 

Há ainda um enorme desafio de infraestrutura no país. Muitas rodovias necessitam de melhorias, cidades ainda convivem com deficiência no saneamento básico e milhões de brasileiros dependem diariamente de serviços públicos que nem sempre apresentam a qualidade esperada.

 

Nesse cenário, a reforma tributária sobre o consumo busca simplificar e modernizar o sistema brasileiro, além de reduzir distorções, aumentar a segurança jurídica e melhorar a eficiência econômica. Isso não significa, por si só, que todos os problemas relacionados à arrecadação e aos gastos públicos estarão resolvidos.

 

Se o Estado arrecada trilhões de reais e ainda enfrenta dificuldades para entregar os serviços e investimentos de que a população necessita, um bom começo é manter permanentemente sob análise a qualidade e a eficiência dos gastos públicos.

 

Esse debate também precisa alcançar o Poder Legislativo.

 

Reportagens e estudos já apontaram que o custo de manutenção do Legislativo brasileiro é elevado quando comparado ao de parlamentos de diversos outros países. Essas comparações precisam considerar diferenças institucionais e metodológicas, mas ajudam a levantar uma discussão legítima sobre quanto custa nossa representação política e quais resultados ela entrega à sociedade.

 

Um deputado federal brasileiro não recebe apenas o salário mensal. A estrutura necessária ao exercício do mandato envolve também verba de gabinete para contratação de funcionários, Cota para o Exercício da Atividade Parlamentar (CEAP), passagens, estrutura administrativa e outros gastos previstos nas normas da Câmara dos Deputados.

 

São recursos públicos e, justamente por isso, precisam estar permanentemente submetidos à transparência e à fiscalização da sociedade.

 

Ao elegermos alguém, devemos ter consciência da responsabilidade que estamos transferindo aos nossos representantes. Não estamos entregando literalmente um “cheque em branco”, pois existem leis, orçamento, órgãos de controle, fiscalização e limites constitucionais. Mas estamos concedendo aos eleitos enorme poder político para decidir sobre a aplicação de recursos provenientes do trabalho de milhões de brasileiros.

 

Se o Brasil não está da forma que gostaríamos, precisamos refletir também sobre nossas próprias escolhas eleitorais. Fomos nós, eleitores, que escolhemos os deputados e senadores que ocupam o Congresso Nacional.

 

No sistema político brasileiro, o presidente da República não governa sozinho. O Congresso Nacional, formado pela Câmara dos Deputados e pelo Senado Federal, possui papel fundamental na aprovação das leis, do orçamento e de diversas políticas públicas. Sem apoio parlamentar, muitas propostas do Poder Executivo simplesmente não avançam.

 

Por isso, a escolha de deputados e senadores merece tanta atenção quanto a escolha do presidente da República.

 

A verdadeira mudança começa quando assumimos responsabilidade pelas escolhas que fazemos. Em 2026, teremos novamente essa oportunidade.

 

Não estaremos apenas apertando algumas teclas na urna eletrônica. Estaremos escolhendo pessoas que terão poder para decidir sobre leis, políticas públicas e sobre a aplicação de uma parcela significativa dos recursos arrecadados da sociedade.

 

Segundo o IBPT, o brasileiro trabalhou, em média, 149 dias em 2025 para pagar tributos. São quase cinco meses de trabalho.

 

Portanto, quando falamos em dinheiro público, estamos falando também de algo que não tem preço: o tempo de vida que milhões de brasileiros dedicaram ao trabalho para produzir essa riqueza.

 

É por isso que votar exige consciência, responsabilidade e, acima de tudo, reflexão.

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