Opinião

A REALIDADE POR TRÁS DO GIZ: QUEM CUIDA DE QUEM ENSINA?

Foto de Maria Júlia Silva Neta (Maju)

Com a proximidade do Dia do Professor, celebrado em 15 de outubro, as homenagens começam a ocupar escolas e redes sociais. Mas a data também convida a uma reflexão que vai além das flores, dos cartões e das mensagens de reconhecimento: quem está cuidando de quem dedica a vida a ensinar?

 

Falar sobre o professor é falar sobre alguém que participa da formação de todas as demais profissões. Antes do médico, do engenheiro, do advogado, do jornalista, do enfermeiro ou de qualquer outro profissional, existiu um professor. Ensinar, portanto, não é apenas transmitir conteúdo. Educar é participar da formação de pessoas e, muitas vezes, contribuir para transformar histórias.

 

A sala de aula é um espaço de troca. Como ensinou Paulo Freire, ensinar não é simplesmente transferir conhecimento, mas criar possibilidades para sua construção. O professor ensina, mas também aprende; orienta, mas também é transformado pelas experiências vividas diariamente com seus alunos. O professor planta sementes que, muitas vezes, não terá oportunidade de ver florescer. Uma palavra de incentivo, um conselho ou o simples gesto de acreditar em um estudante pode permanecer na memória por toda a vida.

 

Rubem Alves também defendia uma educação capaz de despertar curiosidade, encantamento e desejo de aprender. Ensinar é ajudar a transformar informação em conhecimento e conhecimento em sabedoria para a vida.

 

Mas quem cuida de quem ensina?

 

Por trás do quadro, do giz, dos livros e das provas existe uma pessoa. Existe um profissional que também se cansa, possui família, enfrenta preocupações, recebe cobranças e precisa lidar diariamente com indisciplina, conflitos, dificuldades de aprendizagem e diferentes demandas dentro e fora da escola. E, muitas vezes, precisa entrar em sala de aula mesmo quando não está bem. Essa realidade merece atenção.

 

Dados preliminares da Previdência Social mostram que, em 2025, foram concedidos 546.254 benefícios por transtornos mentais e comportamentais, o número reúne trabalhadores em geral e não representa exclusivamente professores, mas revela a dimensão que a saúde mental vem assumindo no mundo do trabalho. No caso dos professores, a reflexão precisa considerar a sobrecarga, o estresse, as condições de trabalho, a indisciplina, os conflitos escolares, a pressão por resultados e a necessidade de conciliar responsabilidades pedagógicas com demandas que ultrapassam, muitas vezes, o ensino de conteúdo.

 

Mas há outro ponto que não pode ser esquecido: a educação não é responsabilidade exclusiva da escola. A participação da família no acompanhamento da vida escolar, no diálogo, na orientação e na construção de limites é fundamental. A Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional estabelece que a educação é dever da família e do Estado e reconhece a valorização dos profissionais da educação como princípio do ensino. Isso mostra que valorizar o professor não é apenas uma questão de discurso. É também uma questão de condições concretas para trabalhar.

 

Ensinar também pode ser uma vocação

 

Para muitas pessoas, ensinar é mais do que uma profissão: é uma vocação, um dom e uma forma de servir. A Bíblia afirma: “Se é ensinar, haja dedicação ao ensino.”

 

Romanos 12:7. Mas reconhecer o ensino como vocação não significa esperar que o professor seja incansável.

 

Quem ensina também precisa descansar.

 

Quem orienta também precisa ser ouvido.

 

Quem cuida também precisa de cuidado.

 

A vocação não elimina a humanidade.

 

Valorizar também é cuidar

 

Valorizar o professor é respeitar seu trabalho, oferecer condições adequadas, garantir segurança, proporcionar formação continuada, ouvir suas necessidades e cuidar de sua saúde física e emocional. É compreender que, antes do profissional diante do quadro, existe uma pessoa. Cuidar do professor também é cuidar da educação. E talvez essa seja uma das reflexões mais importantes para este Dia do Professor. Uma homenagem que permaneça

 

O professor pode nunca saber quantas vidas ajudou a transformar. Pode não acompanhar o momento em que uma semente plantada dentro da sala de aula finalmente dará frutos. Pode nunca descobrir que uma frase dita há anos foi exatamente aquilo que um aluno precisava ouvir. Mas o trabalho permanece. Permanece nas escolhas daquele estudante, na profissão que seguirá, na família que construirá, na comunidade que ajudará a transformar e nas próximas gerações.

 

Não é por acaso que, ao olhar para trás, tantas lembranças escolares continuam vivas. Há professores que deixam marcas que ultrapassam o conteúdo ensinado. São lembrados não apenas pelo que ensinaram, mas pela maneira como fizeram alguém acreditar que era capaz.

 

O conteúdo pode estar nos livros. As fórmulas podem estar no quadro. As regras podem estar nos cadernos. Mas a verdadeira transformação de uma vida deixa marcas que permanecem na memória, e muitas delas têm o nome de um professor. Que o Dia do Professor seja mais do que uma data comemorativa. Que seja um momento para reconhecer a grandeza de ensinar, mas também a humanidade de quem ensina.

 

Porque cuidar de quem ensina é cuidar da educação. E cuidar da educação é cuidar do futuro.

 

Feliz Dia do Professor, que se aproxima!

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