Opinião

QUEM ‘POLITICAR’ NÃO PODE COBRAR DIREITOS? É ISSO ENTÃO?

Foto de Marcelo Gris

A manifestação dos servidores públicos municipais de Guaraí, realizada nesta última sexta-feira, 23 de outubro, trouxe reivindicações legítimas: concursos públicos, pagamento de progressões funcionais e esclarecimentos sobre mudanças na previdência. Entretanto, a resposta oficial da Prefeitura incluiu uma referência a possíveis interesses político-eleitorais que considero desnecessária e desrespeitosa com os trabalhadores que participaram do movimento.

 

A declaração parte de uma gestora que, nos últimos meses, tem dedicado parte considerável de sua agenda à defesa pública de seus candidatos, tanto nas redes sociais quanto nas ruas. Afinal, os servidores e demais eleitores não podem fazer suas escolhas políticas ou declará-las publicamente, mas a prefeita e aqueles que a cercam podem? Desde quando o direito de manifestar preferências políticas passou a ser legítimo para uns e motivo de suspeita para outros?

 

É preciso lembrar que Guaraí não realiza um concurso público geral desde 2016. São mais de 10 anos de espera. Segundo levantamento do Tribunal de Contas do Estado do Tocantins (TCE/TO), referente a novembro de 2025, o município contava com 562 servidores temporários e apenas 425 efetivos. Os números ajudam a dimensionar um problema que não surgiu às vésperas das eleições e que, inclusive, motivou uma Ação Civil Pública (ACP) ajuizada recentemente.

 

A Prefeitura afirma que o concurso para a Educação, que, na prática é tão somente para 104 vagas de Professor, estaria em estágio avançado e que existem procedimentos para os demais cargos. Mas onde estão os cronogramas? Quando serão publicados os editais? Quantas vagas serão oferecidas? Este assunto também é tratado em notas oficiais? São estas as respostas que os servidores e a população esperam, independentemente de quem esteja disputando uma eleição.

 

Também não considero razoável questionar a representatividade de uma manifestação pelo fato de ela não reunir todos os servidores. Nenhum movimento precisa da unanimidade de uma categoria para ser legítimo e olha que a manifestação do dia 23 não foi pequena, reunindo centenas de profissionais como nunca se viu em Guaraí. Da mesma forma, trabalhadores não precisam abrir mão de suas convicções políticas para reivindicar direitos. Cobrar providências da administração não transforma automaticamente ninguém em adversário político.

 

É evidente que a Prefeitura de Guaraí tem o direito de apresentar sua versão, defender os avanços da gestão e até questionar eventuais interesses partidários, desde que existam elementos concretos para isso. O que não me parece adequado é levantar suspeitas justamente quando servidores cobram soluções para problemas antigos, conhecidos e ainda pendentes.

 

A prefeita Fátima Coelho e sua equipe têm a oportunidade de demonstrar o compromisso com o diálogo por meio de respostas objetivas, prazos e providências concretas. Afinal, reconhecer o direito de manifestação também significa respeitar as razões que levam trabalhadores às ruas ou melhoro dizendo, para dentro da sede do Poder Executivo.

 

Depois de uma década sem concurso público geral, o problema de Guaraí não é a proximidade das eleições nem a data escolhida para a manifestação. O problema é a demora em resolver questões que já deveriam ter recebido respostas. Direito de servidor não tem partido, e cobrar respeito não é fazer campanha eleitoral.

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