Vivemos em uma sociedade que muda constantemente. A tecnologia avança, os costumes se transformam e novas formas de pensar influenciam a maneira como enxergamos o mundo. Atualizar-se tornou-se necessário. Mas, em meio a tantas transformações, surge uma questão importante: até que ponto evoluir significa abandonar aquilo que fez parte da nossa história?
Recentemente, uma experiência familiar despertou em mim o desejo de refletir sobre essa questão. Ao publicar nas minhas redes sociais vídeos que registravam práticas e tradições da minha família materna, alguns comentários me fizeram perceber como nossas raízes podem ser interpretadas de maneiras diferentes em uma sociedade cada vez mais moderna.
Minha família materna tem uma história de devoção a São José e a outros santos. Durante minha infância, adolescência e parte da juventude, convivi com essa tradição. Rezar o terço fazia parte da rotina familiar. As orações, os costumes e as demonstrações de fé estavam presentes no cotidiano e ajudaram a construir as lembranças de uma fase importante da minha vida.
Hoje, sou cristão evangélico. Minhas convicções religiosas mudaram, mas isso não apaga a história que vivi nem os laços que construí com minha família.
Durante uma visita à minha mãe e aos meus familiares, cheguei à casa da minha tia-avó próximo ao horário em que costumavam rezar o terço. Naquele dia, decidiram iniciar a oração enquanto eu estava presente. Minha tia reconheceu que eu seguia outra religião, mas deixou claro que aquele era o momento da reza.
Peguei uma cadeira, sentei-me ao lado do meu filho e acompanhei tudo até o final. Não participei das orações, pois minhas convicções são diferentes, mas permaneci ali, respeitando aquele momento e as pessoas que amo.
Registrei a cena em vídeo e publiquei nas redes sociais uma frase descontraída sobre aquela tradição: ali, as crianças não dormiam antes de rezar o terço. O episódio, que também despertava lembranças da minha infância, acabou provocando reações e reflexões que me levaram a pensar ainda mais sobre a relação entre modernidade, tradição e respeito.
No dia seguinte, meu avô foi até a casa da minha mãe. Como meu filho enfrentava um problema intestinal, ele pediu para medir suas arcas, uma prática tradicional de bênção que eu próprio conhecia desde criança. Concordei com o pedido. Quando eu era pequeno e ficava doente, meu avô também costumava benzer, rezar e oferecer o cuidado que conhecia e no qual acreditava.
Hoje, contamos com avanços importantes na medicina, na ciência e na tecnologia. Temos mais informações e recursos para compreender e tratar problemas de saúde. Reconhecer esses avanços é fundamental. Mas será que precisamos desprezar as tradições familiares para demonstrar que acompanhamos a evolução do mundo? Acredito que não.
Existe uma diferença entre atualizar nossos conhecimentos e apagar nossa história. Podemos reconhecer a importância da ciência sem ridicularizar a fé de alguém. Podemos seguir convicções religiosas diferentes das de nossos familiares sem transformar essa diferença em motivo de afastamento. Podemos questionar costumes e escolher outros caminhos sem tratar com desprezo as pessoas que preservam essas tradições.
Isso não significa aceitar tudo sem reflexão, nem considerar que todas as práticas antigas devam permanecer inalteradas. No cuidado com a saúde, por exemplo, as tradições podem ter significado afetivo, cultural e espiritual, mas não devem substituir a avaliação de profissionais de saúde nem os tratamentos necessários. Respeitar uma prática familiar e reconhecer seus limites são atitudes que podem caminhar juntas.
O respeito pelas pessoas não depende de concordarmos com todas as suas crenças e escolhas. É possível discordar sem ofender, manter nossas convicções sem impor nossas ideias e conviver com as diferenças sem transformar cada divergência em conflito.
A modernidade nos oferece ferramentas para viver melhor, mas não deveria nos fazer perder a capacidade de reconhecer o valor da memória, dos vínculos familiares e das experiências que nos formaram. O conhecimento amplia nossa visão de mundo; não precisa nos tornar arrogantes diante daqueles que pensam de maneira diferente.
Também penso na responsabilidade de transmitir essa compreensão às novas gerações. Meu filho pode conhecer a história da família, compreender as tradições que fizeram parte da minha infância e aprender a respeitar pessoas com crenças diferentes, sem que isso determine necessariamente quais serão suas próprias convicções no futuro.
Afinal, ensinar respeito não é exigir que alguém pense como nós. É mostrar que as diferenças podem existir sem que o afeto, a convivência e a dignidade sejam deixadas de lado.
Evoluir não significa romper com tudo o que veio antes. Significa ter discernimento para aprender com o presente sem desprezar a história que nos trouxe até aqui.
Talvez o verdadeiro amadurecimento esteja em conseguir mudar sem humilhar, discordar sem desprezar e avançar sem apagar nossas origens. Não precisamos concordar com tudo o que herdamos, assim como não precisamos rejeitar tudo o que pertence ao passado para provar que evoluímos.
O mundo continuará mudando. Nossas ideias poderão amadurecer, nossos conhecimentos serão ampliados e nossos caminhos poderão ser diferentes daqueles percorridos por nossos antepassados. Ainda assim, podemos preservar o respeito, a memória e a humanidade que nos conectam às nossas raízes.
Afinal, atualizar-se é acompanhar o tempo. Ter raízes é não permitir que o tempo nos faça esquecer de onde viemos.
