A morte de José Francisco Moreira de Melo, o “Zezinho”, deveria provocar muito mais do que tristeza: deveria provocar vergonha, indignação e uma profunda reflexão sobre a sociedade que estamos construindo. Enquanto aquela mãe, desesperada, pedia ajuda para conseguir doações de sangue para o próprio filho, quantas pessoas tiveram contato com aquele pedido e simplesmente seguiram suas vidas? Quantas poderiam ter se mobilizado, compartilhado a solicitação, procurado informações ou ao menos, estando aptas, considerado a possibilidade de doar, mas sequer se dispuseram a fazer alguma coisa? Não conheço todas as circunstâncias médicas que envolveram o óbito e, portanto, não afirmo que a mobilização de mais doadores teria necessariamente salvado sua vida. Mas isso não diminui a gravidade da questão que permanece diante de nós: por que a disposição de ajudar o próximo parece desaparecer justamente quando alguém mais precisa dela?
É profundamente revoltante pensar que, em uma sociedade na qual tantas pessoas passam horas conectadas, compartilhando vídeos, fotografias, opiniões e acontecimentos banais, um pedido de ajuda tão delicado possa ser tratado como mais uma publicação qualquer, a sociedade é cruel. Temos tempo para acompanhar a vida de desconhecidos, discutir a vida de pessoas famosas, comentar sobre Virgínia, sobre fulano e beltrano, comentar polêmicas e alimentar conflitos virtuais, mas, diante da necessidade real de alguém, encontramos inúmeras maneiras de permanecer indiferentes. A tecnologia aproximou pessoas que vivem a milhares de quilômetros de distância, mas parece não ter sido suficiente para aproximar muitos de nós do sofrimento que acontece ao nosso lado. Estamos conectados o tempo inteiro, mas nem sempre estamos verdadeiramente dispostos a nos importar. A verdade é que, parece que essa geração, nem sequer tem coração.
E o que mais me incomoda nessa realidade é a contradição. A mesma sociedade que, em determinado momento, ignora o pedido desesperado de uma família pode ser a que, amanhã, estará implorando por ajuda. Porque a doença não escolhe classe social, a necessidade não consulta o saldo bancário e o sofrimento não exige autorização para entrar na casa de ninguém. Ontem foi a mãe de “Zezinho” que precisava de respostas; amanhã, pode ser a sua mãe, seu pai, seu irmão, seu filho ou alguém que você ama profundamente. Quando a tragédia bate à nossa porta, descobrimos, da maneira mais dolorosa, que nenhum de nós é tão autossuficiente quanto imagina.
É justamente por isso que precisamos questionar a facilidade com que tratamos os problemas dos outros como se fossem irrelevantes. Não é necessário conhecer uma pessoa para reconhecer que a vida dela importa. Não é necessário compartilhar o mesmo sobrenome para compreender o desespero de uma mãe. E não é necessário esperar que a tragédia aconteça dentro da nossa própria família para descobrir o significado da solidariedade.
O que garante que daqui uma semana, um mês, você também não irá precisar de uma ajuda?
Não importa quem foi, o que fez ou deixou de fazer. Uma vida é uma vida, uma alma é uma alma. A humanidade não deveria depender de julgamentos, e a solidariedade não deveria ser privilégio de quem consideramos merecedor. Afinal, ninguém precisa ser perfeito para merecer viver.
Bom… não posso mudar o passado daquela mãe, e meu grito, somado ao dela, talvez nada mudasse diante de uma sociedade tão indiferente. À família, peço perdão por uma realidade na qual tantos poderiam ter ajudado, mas preferiram o silêncio. Minhas mais sinceras condolências. Que Deus conforte cada coração enlutado.
