O palavreado chulo foi proposital — não por gosto, mas por eficácia. É o idioma que certos personagens entendem sem legenda. A grosseria virou isca, e funcionou: fisgou um debate que é muito maior do que as palavras “lixo”, “covardes”, “abutres” ou “carniceiros”. Para entender o incômodo, é preciso encarar o contexto.
Em Guaraí, parte da classe política vive em loop. Décadas passam, eleições mudam, mas o roteiro segue o mesmo: quem deveria fiscalizar prefere se refugiar no conforto das panelinhas, dos acordos de bastidores e do servilismo aos poderes alheiros. Não é alinhamento político — é submissão. E quando o Legislativo se porta como departamento anexo da Prefeitura, não há democracia que resista.
O resultado desse vício crônico é destrutivo. A população deixa de enxergar Câmara e Prefeitura como espaços públicos e passa a vê-los como feudos particulares. A descrença cresce, o interesse cívico evapora e a representatividade vira figura decorativa.
Nos últimos dias, minhas críticas — duras, sim; injustas, não — despertaram irritação na Casa de Leis. A resposta veio inflada, como se apontar falhas institucionais fosse um ataque pessoal. A reação mostrou exatamente o que tentei expor: quando falta densidade política, sobra sensibilidade epidérmica.
Há ainda outro problema: a fixação em pautas desconectadas da realidade. Repudiam palavras, mas ignoram a falta de atitude diante do dever público. Produzem discursos inflamados contra “o tom”, mas silenciam diante da omissão, da incompetência e da subserviência. É a política do espelho quebrado: preferem culpar quem mostra a imagem do que consertar o que está quebrado.
Os tempos mudaram. A sociedade está conectada, informada e menos disposta a engolir narrativas prontas. E vai cobrar — cedo ou tarde — que cada agente político eleito seja dono do próprio mandato, não instrumento manipulável a serviço de interesses alheios, muitas vezes obscuros, outras tantas simplesmente sujos, focados apenas no próprio umbigo.
Autoridade não se sustenta em nota de repúdio. Se sustenta em trabalho, coragem e integridade. E quem não consegue entregar isso já está, politicamente, em fim de carreira, mesmo não percebendo.
