
Poucas palavras circularam tanto na era das redes sociais quanto “influenciar”. E, talvez, poucas tenham sido tão esvaziadas de significado. Hoje, qualquer pessoa com uma câmera na mão, alguns milhares de seguidores e um código de desconto pode se apresentar como influenciador. Mas influência de verdade é outra coisa.
Na mesma semana em que vemos gente famosa lamentando, diante das câmeras, o dinheiro perdido com as bets, o Brasil se despede de Joselito Geraldo de Souza, o Lito, do canal Aviões e Músicas. Lito morreu aos 59 anos, vítima de uma doença rara e cruel. Nordestino de Natal, mecânico de aeronaves que se tornou piloto, escritor e, acima de tudo, uma presença querida e respeitada por milhões de brasileiros.
Eu acompanhei o trabalho do Lito durante anos. E posso dizer, sem exagero: aprendi muito com aquele homem. Aprendi sobre aviação, sobre segurança, sobre acidentes, sobre procedimentos, sobre turbinas, sistemas, turbulências e tantas outras coisas que, para quem está sentado na poltrona de um avião, parecem um mundo distante, cheio de siglas e termos difíceis.
Mas o Lito tinha um dom danado. Ele pegava um assunto complicado e explicava como quem estava proseando com a gente na varanda de casa. Sem frescura. Sem querer parecer mais inteligente do que ninguém. Sem transformar conhecimento em arrogância. Ele simplesmente ensinava. E ensinava bem.
Explicava o que acontece quando o avião acelera na pista. Explicava aquele barulho diferente das turbinas. Explicava por que o avião balança durante uma turbulência. Explicava por que a aeronave inclina, como funcionam determinados sistemas e o que, de fato, acontece quando alguma coisa sai do planejado. E fazia tudo isso com uma tranquilidade que passava para quem estava do outro lado da tela.
Eu mesmo senti isso na pele. Em julho passado, viajei de avião para o Rio de Janeiro com minha família. E posso dizer uma coisa: depois de ouvir o Lito por tantos anos, viajar de avião ficou diferente para mim. Quando o avião acelerou, eu sabia um pouco melhor o que estava acontecendo. Quando ouvi o som das turbinas mudar, já não era aquele barulho estranho que causa preocupação. Quando veio uma turbulência, eu não pensei imediatamente que havia alguma coisa errada. Eu entendia. E quando a gente entende, o medo diminui.
Talvez esse tenha sido um dos maiores presentes que Lito deixou para tanta gente: ele transformava medo em conhecimento. E conhecimento, quando compartilhado com generosidade, também é uma forma de cuidar.
Lembro especialmente da maneira como ele falava sobre acidentes aéreos. Inclusive quando recordava o acidente da VoePass. Havia momentos em que a emoção tomava conta. Os olhos marejavam. A voz mudava. Mas não havia espetáculo. Não havia aquela exploração da tragédia para conseguir clique. Havia dor. Havia respeito. Havia humanidade. Era o choro pelo outro.
E talvez esteja aí a diferença entre simplesmente ter audiência e realmente influenciar. Porque audiência conta números. Influência deixa marcas.
Influenciar, no sentido mais bonito da palavra, é usar o espaço que Deus colocou nas nossas mãos para tornar a caminhada de alguém um pouco melhor. É ensinar alguma coisa. É acalmar alguém. É despertar uma vocação. É ajudar uma pessoa a vencer um medo. É deixar uma palavra que continua ecoando mesmo depois que a tela se apaga.
Lito fez isso. Ajudou pessoas a perderem o medo de voar. Despertou em outras o interesse pela aviação. Levou conhecimento para milhões de brasileiros. E, para muita gente, talvez tenha tornado possível entrar em um avião pela primeira vez sem aquele aperto no coração.
Enquanto isso, há quem tenha milhões de seguidores e use essa audiência para vender ilusões, estimular apostas, oferecer atalhos e transformar a fragilidade das pessoas em oportunidade de lucro. Uns se levantam. Outros empurram para baixo. Uns ensinam. Outros exploram. Uns deixam conhecimento. Outros deixam apenas publicidade.
Lito escolheu ensinar. E, ensinando, influenciou.
Por sua partida dói. Dói porque não estamos apenas perdendo um profissional da aviação. Estamos perdendo uma voz que sabia conversar com o Brasil. E talvez seja por isso que tanta gente, de Norte a Sul, esteja sentindo essa despedida.
Aqui no Tocantins, a gente costuma dizer que uma pessoa boa é daquelas que “faz falta até quando está perto”. Lito era assim. Daqueles sujeitos que a gente nunca encontrou pessoalmente, mas que, de tanto entrar na nossa casa pela tela do celular, parecia conhecido. Parecia amigo. Parecia aquele sujeito que a gente encontraria numa mesa simples, tomando um café, proseando sobre avião e contando causos da vida.
E é bonito pensar que um homem lá de Natal conseguiu chegar tão longe. Chegou a Guaraí. Chegou ao Tocantins. Chegou a cada canto desse Brasil imenso. Chegou na casa de quem estava em São Paulo, no sertão nordestino, no interior de Goiás, aqui no nosso Tocantins, no Norte, no Sul. Porque conhecimento não tem divisa. Boa influência também não.
Fica a saudade daquela voz tranquila. Da simplicidade. Do jeito paciente de explicar o que parecia complicado. Fica a gratidão por tantas aulas gratuitas. E fica uma lição que talvez seja maior do que a própria aviação: a internet pode ser muito mais do que um lugar para aparecer. Ela pode ser um lugar para servir.
Lito entendeu isso. Não precisava gritar. Não precisava criar polêmica todo dia. Não precisava vender uma vida perfeita. Ele simplesmente se sentava, explicava e ensinava. E milhões de pessoas paravam para ouvir.
Obrigado, Lito. Obrigado pelas aulas. Obrigado pelas explicações. Obrigado por ter ajudado tanta gente a entender aquilo que acontecia acima das nuvens. E obrigado, particularmente, por ter me feito olhar para a aviação com outros olhos.
Em julho, quando entrei naquele avião rumo ao Rio de Janeiro com minha família, talvez você nunca tenha imaginado, mas parte da tranquilidade que senti durante aquele voo também era fruto do conhecimento que você compartilhou gratuitamente durante tantos anos.
E talvez esse seja o verdadeiro significado de influenciar: é continuar fazendo bem à vida das pessoas mesmo depois que a gente já não está mais aqui.
Lito partiu. Mas aquilo que ele ensinou continua voando. E enquanto houver alguém entrando em um avião um pouco menos assustado porque aprendeu com ele, sua voz continuará presente.
Como a gente diz por aqui: vá em paz, meu amigo. Que Deus conforte sua família, seus amigos e todos aqueles que aprenderam a gostar de aviação por sua causa. E que, lá de cima, o próximo voo seja tranquilo.
Até o próximo voo, Lito.
