Opinião

“EM QUE VOU USAR ISSO?” ENTRE A TEORIA, A PRÁTICA E A VIDA

Foto de Homeilton José de Oliveira

“Professor, em que vou usar isso?” É uma pergunta que ouço frequentemente quando ensinando química tenho que explicar hibridização, geometria molecular e carbono quiral. Considero-a questão compreensível: afinal, vivemos em contato direto com o mundo macroscópico e então queremos saber para que serve aquilo que aprendemos na teoria. Um fato trivial é que quando uma ideia não apresenta utilidade imediata, corremos o risco de considerá-la desnecessária. Não vivemos sem teoria e muito menos sem metafisicas, porém, a vida cotidiana exige decisões concretas.

 

O pragmatismo norte-americano, especialmente o pensamento de William James (1842–1910), ajuda-nos a refletir sobre essa relação. Nossas ideias se relacionam com a experiência, as escolhas e as consequências de nossas ações. Entretanto, muitas vezes e, na maioria delas, a praticidade imediata vence a reflexão. Sabemos que a queima de combustíveis fósseis contribui para o efeito estufa, mas pensamos: “É mais fácil ir de carro à padaria!”. Também conhecemos os riscos do consumo excessivo de açúcar, mas, diante de um chocolate, preferimos o prazer e dizemos: “Comer isso me faz feliz!”.

 

Parafraseando Gaston Bachelard (1884–1962), filósofo francês da ciência, carregamos diferentes pressupostos e maneiras de interpretar o mundo, quase sempre sem examiná-los. É nesse ponto que a pergunta dos estudantes ganha dimensões filosóficas: será que tudo aquilo que importa precisa demonstrar sua utilidade imediatamente?

 

O carbono que não vemos e o mundo que ele explica

 

Ao ensinar a estrutura do átomo, trabalhamos com modelos. Não observamos um átomo como observamos uma pedra ou uma árvore; sua estrutura é compreendida por meio de modelos teóricos e evidências experimentais. O modelo de Bohr foi historicamente importante, embora não corresponda à descrição quântica moderna. Hoje o modelo utilizado é o de Erwin Schorodinger (1887-1961). Da mesma forma, a regra do octeto explica muitas ligações químicas, mas não todos os compostos. Isso não torna os modelos inúteis: cada um tem possibilidades e limites.

 

O carbono é um dos átomos mais extraordinários por sua capacidade de formar ligações covalentes e uma grande diversidade de compostos orgânicos. No modelo de hibridização, um carbono que estabelece quatro ligações simples apresenta, em geral, geometria tetraédrica e é descrito como sp³. Quando está ligado a quatro grupos diferentes, pode constituir um centro quiral: a molécula pode existir em duas formas que são imagens especulares não sobreponíveis, chamadas enantiômeros.

 

É semelhante ao que ocorre com nossas mãos: a direita e a esquerda são imagens no espelho, mas não se sobrepõem perfeitamente. A diferença parece pequena, mas a natureza também é tridimensional. Proteínas, enzimas e receptores celulares têm estruturas específicas; por isso, a forma de uma molécula pode influenciar suas interações com o organismo.

 

Figura 1 – Representação esquemática da quiralidade e dos enantiômeros

Fonte: elaboração própria com auxílio de inteligência artificial (OpenAI, ChatGPT, 2026).

 

Quando a geometria molecular encontra a medicina

 

No desenvolvimento de medicamentos, não basta saber quais átomos compõem uma molécula: sua organização espacial também pode ser decisiva. Em alguns casos, dois enantiômeros apresentam diferenças de atividade farmacológica, metabolismo ou toxicidade; em outros, seus efeitos podem ser semelhantes. Por isso, cada substância precisa ser estudada individualmente.

 

Dois cientistas entraram para a historia no último dia 07 de outubro, semana passada. O comitê do Prêmio Nobel de Química em Estolcomo, anunciou os nomes do químico frances Henri Kagan (nascido em 1930) e do japonês Kenso Soai (nascido em 1961) que uniram teorias e práticas. Após um periodo de investigaçao compreenderam como favorecer a formação de uma determinada forma quiral. A pesquisa de Soai sobre autocatálise assimétrica mostrou que um pequeno excesso inicial de uma forma quiral pode ser amplificado durante uma reação. As contribuições de Kagan ajudaram a compreender os efeitos não lineares na catálise assimétrica. Esses estudos ampliam as ferramentas da síntese orgânica, com relevância para a produção de moléculas que serão usadas, entre outras áreas, principalmente, na indústria farmacêutica. Teorias que a partir de então, estarão na praticidade dos seres humanos.

 

Aquilo que parecia um exercício abstrato de geometria molecular apresenta, agora, novas possibilidades práticas  para desenvolver novos processos químicos. Todavia, estou certo de que quando eu estiver falando do carbono quiral, ainda existirá muitos  estudantes a me questionar: “em que vou usar isso?”. Desta vez estarei bem mais feliz à explicar que, a partir das teorias, encontramos uma nova praticidade para viver e enfrentar a vida.

 

A teoria não precisa pedir desculpas à prática

 

Perguntar para que serve um conhecimento é legítimo. O problema surge quando exigimos que toda ideia demonstre sua utilidade imediata. Algumas aplicações aparecem muito tempo depois da descoberta; outras nem sequer podem ser previstas. A teoria não é o oposto da prática: muitas vezes, é o que torna uma prática possível, segura e consciente.

 

Quando ensino hibridização e quiralidade, não apresento apenas desenhos para memorizar. Mostro modelos que ajudam a compreender a matéria e a reconhecer como pequenas diferenças estruturais podem produzir consequências importantes. Até nossas escolhas cotidianas — dirigir, consumir alimentos ou utilizar medicamentos — dependem de conhecimentos científicos acumulados ao longo da história.

 

Talvez o estudante nunca trabalhe diretamente com a hibridização do carbono ou precise desenhar um enantiômero fora da sala de aula. Ainda assim, poderá aprender que a realidade é mais complexa do que parece, que os modelos explicam sem esgotar o mundo e que a ciência avança quando alguém investiga aquilo que, à primeira vista, parece pouco útil. E na maioria das vezes contraditorio e sem nenhuma utilidade referente ao nosso cotidiano.

 

A vida prática é o agir; a metafisica e as teorias nos ajudam a compreender o que fazemos e o que poderíamos fazer de outra maneira. Nem toda teoria resolve um problema imediato. Algumas nos permitem descobrir problemas que ainda não sabíamos formular; outras oferecem ferramentas para responder a perguntas que o futuro apresentará.

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