Passei boa parte da minha vida escrevendo sobre mulheres. Escrevendo sobre coragem, denúncia, violência, medo e sobre a necessidade de não permitir que uma mulher seja silenciada para preservar a imagem de um homem. Sempre defendi que, diante da violência, o silêncio nunca deveria ser tratado como virtude.
Até que um dia a situação deixou de ser um tema sobre o qual eu escrevia. Tornou-se algo que eu precisei enfrentar. E foi aí que eu entendi, de uma maneira que nenhum texto poderia me ensinar, o quanto é difícil ser a mulher que decide falar.
Porque quando uma mulher denuncia, não questionam apenas o que aconteceu. Questionam o caráter dela, a intenção dela, a sanidade dela. Perguntam por que ela não ficou calada, por que expôs, por que não protegeu a reputação do homem, por que não resolveu “em particular”. Como se a responsabilidade de preservar a imagem de quem a feriu fosse maior do que a responsabilidade de proteger a própria dignidade.
Eu me recuso a aceitar isso. Eu não poderia passar anos escrevendo que mulheres precisam se defender e, quando chegasse a minha vez, abandonar tudo aquilo que defendi por medo das consequências. Não poderia pedir coragem de outras mulheres enquanto eu mesma escolheria o silêncio para proteger alguém.
Por isso, eu falei. Registrei a ocorrência. Pedi medida protetiva. Procurei os caminhos legais e deixei que o processo siga como deve seguir. Não fiz isso porque não senti medo. Fiz justamente porque senti.
Coragem não é não ter medo. Às vezes, coragem é estar assustada, abalada, sem saber exatamente o que acontecerá depois, e ainda assim decidir que aquilo que aconteceu com você não será escondido para que outra pessoa continue confortável.
Também não escrevo isso para transformar dor em espetáculo. Escrevo porque existe uma diferença enorme entre expor alguém por vingança e falar sobre aquilo que você viveu para se proteger, buscar justiça e impedir que o silêncio seja usado contra você.
E talvez essa seja uma das partes mais cruéis de tudo: a vítima muitas vezes precisa provar que está sofrendo enquanto o agressor continua preocupado com a própria reputação.
Mas eu não vou carregar esse peso. A reputação dele não vale mais do que a minha segurança. A imagem dele não vale mais do que a minha dignidade. O conforto dele não vale mais do que a minha voz.
Se eu passei tanto tempo dizendo que mulheres precisam denunciar, eu não poderia falhar justamente quando a história passou a ser minha. Hoje, eu não escrevo apenas como escritora. Escrevo como mulher.
Uma mulher que teve medo, que chorou, que se abalou, mas que decidiu não desaparecer para que outra pessoa pudesse continuar parecendo correta. Sim, eu falei! E agora, que a verdade siga o seu caminho.
