Desde que Professora Dorinha (União Brasil) e Vicentinho Júnior (PSDB) avançaram para o segundo turno no Tocantins, uma pergunta passou a dominar boa parte das discussões políticas: afinal, quem é apoio legítimo de Bolsonaro?
A disputa tem sua lógica. O bolsonarismo demonstrou novamente força eleitoral no Estado e os dois candidatos sabem que precisam preservar esse eleitorado. O problema é que, enquanto seus grupos discutem quem está mais próximo de Bolsonaro, a matemática do primeiro turno aponta para outro campo que também merece atenção: os eleitores que não escolheram nenhum dos dois.
Dorinha terminou o primeiro turno com 386.260 votos (45,52%), contra 372.848 (43,94%) de Vicentinho. A diferença foi de apenas 13.412 votos, ou 1,58 ponto percentual. Já os quatro candidatos que ficaram pelo caminho reuniram 89.521 votos, equivalentes a 10,54% dos votos válidos. São quase 90 mil eleitores que precisarão decidir entre Dorinha e Vicentinho, votar em branco ou nulo ou simplesmente não comparecer. Laurez Moreira concentra a maior fatia desse grupo, com 69.967 votos (8,24%). Ataídes somou 13.173 (1,55%); Witer Naves, 5.109 (0,60%); e Du Pereira, 1.272 (0,15%).
A dimensão fica mais evidente quando colocamos os números lado a lado: os votos dados aos quatro candidatos eliminados representam 6,7 vezes a diferença entre Dorinha e Vicentinho.
Não significa, evidentemente, que esses quase 90 mil votos caminharão juntos. Muito pelo contrário. São eleitorados distintos, que incluem desde pessoas identificadas com Lula e a esquerda até eleitores conservadores, além daqueles que fizeram suas escolhas por questões regionais, partidárias ou pela relação direta com cada candidato.
É justamente por isso que a disputa por eles pode ser tão importante. O segundo turno começa praticamente do zero para esse grupo. Quem votou em Laurez, Ataídes, Witer ou Du Pereira terá diante de si uma escolha que não fez no primeiro turno. E não necessariamente seguirá a orientação de seu antigo candidato ou das lideranças políticas que apoiava.
Há ainda 216.623 tocantinenses que não compareceram no primeiro turno, além de 115.181 que votaram em branco ou nulo. Evidentemente, não se pode presumir que esse comportamento mudará, mas esses números reforçam que existe um universo eleitoral muito maior do que as bases já consolidadas dos dois finalistas.
Por isso, talvez Dorinha e Vicentinho estejam diante de dois desafios diferentes. Um é disputar quem representa melhor o eleitorado de Bolsonaro. O outro, possivelmente mais complexo, é convencer quem não escolheu nenhum dos dois.
Afinal, a diferença foi de apenas 13.412 votos, enquanto quase 90 mil votos válidos estão sendo disputados novamente. Bolsonaro importa. Lula também. Os apoios de prefeitos, deputados e lideranças partidárias terão seu peso, mas voto não tem dono.
Enquanto parte dos grupos políticos discute quem recebeu a bênção mais legítima de Bolsonaro, o segundo turno será decidido também por milhares de tocantinenses que, no primeiro, disseram “não” tanto para Dorinha quanto para Vicentinho. E agora são justamente eles que os dois precisam convencer.
