Opinião

A RESOLUÇÃO DOS PROBLEMAS NÃO É UM FILME DA DISNEY

Foto de Igor Gabriel da Silva

Existe algo curioso acontecendo no século XXI: nunca tivemos tanto acesso à informação e, ao mesmo tempo, tanta dificuldade em encarar a realidade.

 

Há décadas, Zygmunt Bauman já alertava sobre uma sociedade líquida, imediatista e emocionalmente superficial, onde tudo precisava ser rápido, confortável e instantaneamente satisfatório. A felicidade virou produto. A indignação virou entretenimento. E a verdade passou a competir com aquilo que simplesmente queremos ouvir.

 

Com o avanço da internet, isso se acentuou de forma quase absurda. Os algoritmos não foram criados para nos mostrar a realidade; foram criados para nos prender. E poucas coisas prendem mais um ser humano do que ouvir exatamente aquilo em que ele já acredita.

 

A internet criou bolhas emocionais. Pequenos universos paralelos onde cada grupo monta sua própria versão do mundo, seus próprios heróis, seus próprios vilões e sua própria narrativa de salvação. É quase uma adaptação moderna de conto infantil: existe um mal absoluto, basta derrotá-lo, e então viveremos felizes para sempre.

 

O problema é que a vida não é um filme da Disney.

 

Na vida real, não existe um único vilão sentado numa cadeira giratória acariciando um gato enquanto destrói a sociedade. Os problemas reais possuem raízes profundas, interesses cruzados, décadas de omissão e inúmeras ramificações. Eles não desaparecem no momento em que a música emocionante começa a tocar.

 

Pegue a corrupção como exemplo.

 

Muita gente gosta de tratar corrupção como se fosse culpa exclusiva de um partido, de uma ideologia ou de um político específico. Como se o país fosse Gotham City e bastasse prender o Coringa para tudo voltar ao normal na manhã seguinte. Só que a corrupção não vive apenas no indivíduo; ela sobrevive principalmente no sistema que a protege.

 

E aqui está a ironia mais refinada da democracia moderna: aqueles que deveriam limitar o poder frequentemente ajudam a desenhar mecanismos para protegê-lo.

 

Não é uma questão puramente de direita ou esquerda. Isso seria simplificar um problema estrutural em uma rivalidade de torcida organizada. O sistema político muitas vezes funciona como um grande condomínio de privilégios, onde quem cria as regras também aprende rapidamente como escapar delas.

 

Enquanto isso, o cidadão comum vive preso num paradoxo quase cômico: a Constituição lhe garante inúmeros direitos, mas, para acessá-los, ele frequentemente precisa implorar, gravar vídeo na internet, entrar na Justiça ou depender do favor de algum político sorridente em época eleitoral.

 

O brasileiro possui direito à saúde — desde que espere meses.

 

Possui direito à educação — desde que sobreviva ao abandono.

 

Possui direito à segurança — desde que tenha sorte.

 

Possui direito à justiça — desde que não enfrente alguém poderoso.

 

É como receber um convite para um banquete e descobrir, ao chegar, que a comida está trancada numa sala onde só entra quem já tem influência.

 

E talvez o mais perigoso nisso tudo seja o processo lento de normalização.

 

Nós começamos a aceitar o absurdo porque convivemos com ele diariamente. O intolerável deixa de chocar. O errado vira “normal”. O escândalo dura dois dias até ser substituído pelo próximo trending topic acompanhado de música triste e legenda motivacional.

 

Fiódor Dostoiévski dizia que “o homem é um animal que se acostuma com tudo”. E talvez essa seja uma das frases mais assustadoras já escritas. Porque sociedades não entram em colapso apenas pela presença do erro, mas principalmente quando as pessoas passam a conviver pacificamente com ele.

 

A própria Bíblia já alertava sobre isso em Eclesiastes: “o amor ao dinheiro é a raiz de todos os males”. E o mais interessante é perceber que o texto não diz que o dinheiro é o problema, mas sim a obsessão desenfreada por poder, vantagem e domínio — exatamente aquilo que corrói instituições até hoje.

 

No fim, talvez nossa maior infantilidade coletiva seja acreditar que problemas complexos terão soluções simples. Queremos um herói. Um culpado único. Um discurso mágico. Uma frase de efeito. Um corte de 30 segundos no TikTok que explique décadas de falência estrutural.

 

Mas o mundo real não funciona em episódios de vinte minutos com final feliz.

A resolução dos problemas exige transparência, maturidade social, instituições fortes, cobrança contínua e, acima de tudo, disposição para enxergar a realidade fora das bolhas emocionais que construímos para nós mesmos.

 

Porque enquanto continuarmos tratando política como futebol, justiça como espetáculo e corrupção como problema “do outro lado”, continuaremos vivendo dentro dessa fantasia confortável onde sempre existe um único vilão responsável por tudo.

 

E talvez essa seja a maior ironia de todas: muita gente diz querer mudança, mas não suporta abandonar a narrativa simples que faz parecer que o mundo cabe perfeitamente dentro de um filme infantil.

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