Há uma cena que se repete, silenciosa, em milhões de lares brasileiros: o celular vibra, uma mensagem chega parecendo legítima, um link é clicado, uma ligação convincente é atendida e, em minutos, uma vida inteira de economias pode desaparecer. Não há arma, não há confronto, não há sangue nas ruas. Mas há crime. E, cada vez mais, é esse o retrato da criminalidade que mais cresce no Brasil.
Por muito tempo, quando pensávamos em segurança pública, a imagem que vinha à mente era a da viatura circulando pelo bairro, do policiamento ostensivo, da resposta rápida ao assalto ou ao roubo de veículo. E essa imagem continua importante. O trabalho da Polícia Militar, da Polícia Rodoviária Federal e das demais forças ostensivas é insubstituível e segue salvando vidas todos os dias. Mas o mundo mudou, e o crime mudou junto com ele.
Uma criminalidade que trocou a rua pela rede
Os números mais recentes contam essa história com clareza. O 20º Anuário Brasileiro de Segurança Pública, divulgado em julho de 2026 pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública (FBSP), revela um cenário paradoxal: enquanto crimes patrimoniais violentos tradicionais, como roubos de rua, de veículos e a estabelecimentos comerciais, caíram, em uma retração geral de 18,3%, os crimes cibernéticos e as fraudes digitais bateram recorde histórico em 2025, com 2,26 milhões de casos de estelionato registrados no país.
Os golpes digitais puros, aqueles que dependem de engenharia social, do golpe do Pix e, cada vez mais, do uso de inteligência artificial, como os deepfakes capazes de imitar vozes e rostos de pessoas conhecidas, cresceram 20,6% em apenas um ano.
Esses dados não são apenas estatísticas frias. Eles retratam uma transição: o crime está migrando da esquina para o ambiente virtual, do confronto físico para a arquitetura invisível das transações digitais. Junto com o estelionato cibernético, cresce também a sofisticação da lavagem de dinheiro, que hoje se vale de criptoativos, estruturas financeiras complexas e redes internacionais para embaralhar o rastro do dinheiro ilícito, dificultando significativamente o trabalho de quem investiga.
A criminalidade tradicional e violenta também se modernizou
Essa sofisticação tecnológica não é exclusividade das fraudes digitais. Ela também está no coração da criminalidade tradicional e violenta que ainda assombra as ruas. Roubos, extorsões, tráfico de drogas e outros crimes tradicionais raramente são, hoje, ações isoladas de um autor que age por conta própria. Em grande parte, são operações comandadas à distância por lideranças de organizações criminosas e facções, que utilizam aplicativos de mensagens criptografadas, redes sociais e outras ferramentas digitais para coordenar seus integrantes, distribuir tarefas e manter o controle territorial, muitas vezes de dentro dos presídios.
O dinheiro obtido com essa violência também não permanece estático. Cada vez mais, percorre o mesmo ciclo tecnológico de ocultação que movimenta as fraudes cibernéticas. Estruturas financeiras complexas transformam o produto desses crimes em recursos aparentemente lícitos, utilizados para financiar novas ações criminosas e sustentar o padrão de vida de quem ocupa o topo dessas organizações.
O combate à criminalidade em rede exige investigação
Esse tipo de criminalidade, organizada, tecnológica, estruturada em rede e frequentemente oculta por meio de laranjas, empresas de fachada e sofisticados mecanismos jurídicos, não se combate apenas com ações ostensivas. Ela exige investigação. Exige inteligência policial qualificada, capaz de romper sucessivas camadas de dissimulação até alcançar quem efetivamente planeja, comanda e obtém lucro com essas organizações.
Essa é justamente a vocação constitucional das polícias judiciárias, representadas pelas Polícias Civis dos estados e pela Polícia Federal. São essas instituições que possuem atribuição legal e capacidade técnica para conduzir investigações, instaurar e presidir inquéritos policiais, representar por quebras de sigilo, rastrear fluxos financeiros e desarticular organizações criminosas de dentro para fora.
O policiamento ostensivo previne e reage ao delito visível. A investigação alcança o delito oculto. Ambos são indispensáveis, mas apenas a investigação consegue atingir os verdadeiros líderes das organizações criminosas mais sofisticadas.
Um efetivo defasado diante de um desafio crescente
O problema é que essa estrutura investigativa se encontra, atualmente, comprometida pela deficiência de efetivo.
Estudo divulgado pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública, em 4 de agosto de 2026, demonstrou que o Brasil opera com um contingente policial muito inferior ao previsto em lei pelos próprios estados. São quase 820 mil profissionais de segurança pública em atividade. Entretanto, a situação mais preocupante está nas Polícias Civis, cujo efetivo encontra-se 45% abaixo do considerado ideal. Atualmente, existem aproximadamente 97 mil investigadores, escrivães e delegados em atividade, quando o quantitativo previsto seria de cerca de 175 mil profissionais.
A disparidade entre os estados chama a atenção. Enquanto o Amapá opera com 98% do efetivo previsto e Sergipe com 92%, outros estados enfrentam um cenário dramático. Rondônia possui apenas 28% do efetivo ideal, enquanto Rio de Janeiro e Paraíba contam com apenas 34%. Em números absolutos, São Paulo lidera com aproximadamente 19 mil policiais civis, seguido por Minas Gerais, com cerca de 9 mil. Já estados como Roraima, Acre e Tocantins operam com efetivos reduzidos, de poucas centenas ou pouco mais de mil profissionais, responsáveis por toda a demanda investigativa de seus territórios.
O efeito dessa deficiência é previsível. Quanto menor a capacidade investigativa do Estado, maior o espaço para que organizações criminosas se fortaleçam, se profissionalizem e utilizem as tecnologias disponíveis para ampliar sua atuação e reduzir os riscos de responsabilização.
Repensar a segurança pública é também repensar a investigação
Se queremos enfrentar essa nova geração de criminalidade, mais tecnológica, mais estruturada e mais sofisticada, é indispensável ampliar a compreensão sobre o que significa investir em segurança pública.
Não basta fortalecer o policiamento ostensivo, por mais essencial que ele seja. É igualmente necessário investir nas polícias judiciárias, promovendo concursos públicos para recompor os quadros, fortalecendo a inteligência policial, modernizando ferramentas tecnológicas de investigação, ampliando a capacitação em crimes financeiros e cibernéticos e garantindo estrutura adequada para perícias complexas.
O crime evoluiu. Trocou o revólver pela engenharia social, a rua escura pelos aplicativos de mensagens e o esconderijo físico pelas contas em criptoativos. Se a resposta do Estado não acompanhar essa evolução, continuaremos vencendo batalhas visíveis enquanto perdemos, silenciosamente, a guerra travada nos bastidores do crime organizado.
Investir nas polícias judiciárias não significa escolher uma instituição em detrimento de outra. Significa compreender que segurança pública eficiente depende de integração entre prevenção, repressão e investigação. Afinal, proteger o cidadão, hoje, exige perseguir o crime exatamente onde ele se esconde.
