Opinião

O ELEITOR BRASILEIRO ESQUECE RÁPIDO DEMAIS

Foto de Giovana Evangelista da Silva

No Brasil, a memória política costuma durar menos do que uma campanha eleitoral. O político promete, erra, decepciona, protagoniza escândalos, muda de discurso, troca de posição e, depois de algum tempo, reaparece diante do eleitor com uma nova promessa, uma nova narrativa e um novo discurso cuidadosamente preparado. E uma parcela da população o recebe como se o passado tivesse sido apagado. Não foi. A política brasileira sofre, entre tantos problemas, de uma doença conveniente: a memória curta de quem vota. O eleitor esquece rápido demais. Esquece o que foi prometido. Esquece o que não foi cumprido. Esquece os discursos contraditórios. Esquece os abusos. Esquece as alianças feitas por conveniência. Esquece o político que passou anos dizendo uma coisa e, quando percebeu que outra posição seria eleitoralmente mais vantajosa, passou a defender o contrário. Esquece porque a política aprendeu a trabalhar com o tempo. O escândalo ocupa as manchetes durante alguns dias. A indignação cresce nas redes sociais. Os discursos inflamados aparecem. As pessoas prometem nunca mais votar naquele político. Meses depois, surge uma nova crise. Outro assunto domina as redes. Outro vídeo viraliza. Outro personagem aparece. E aquilo que parecia imperdoável começa a desaparecer da memória coletiva.

 

Quando chega a eleição, muitas vezes o eleitor já não está escolhendo entre aquilo que os candidatos fizeram e aquilo que poderiam fazer. Está escolhendo entre narrativas. E narrativa, quando não existe memória, pode esconder quase qualquer coisa. O problema não está apenas nos políticos. Está também em uma cultura política que transforma eleição em espetáculo e eleitor em torcedor. O candidato que pertence ao grupo político preferido recebe uma espécie de proteção emocional. Seus erros são relativizados. Seus aliados são defendidos. Suas contradições ganham explicações. Seus fracassos são atribuídos ao adversário, ao Congresso, à oposição, à imprensa, ao sistema, à economia ou a qualquer outra coisa. Quando o mesmo erro aparece no adversário, a indignação volta com força total. Isso não é consciência política. É torcida. O eleitor que transforma político em ídolo deixa de fiscalizá-lo. E esse é um dos maiores perigos de uma democracia. Político não deveria ser amado. Político deveria ser cobrado. Não deveria existir fidelidade partidária acima da própria consciência. Não deveria existir político tão querido que seus erros se tornassem aceitáveis. Não deveria existir grupo político tão admirado que seus integrantes recebessem uma espécie de imunidade moral dos próprios eleitores. O cidadão não foi eleito para defender político. O político foi eleito para representar o cidadão. A inversão dessa relação produz uma sociedade perigosa: aquela em que pessoas comuns passam mais tempo tentando justificar os erros de autoridades do que cobrando resultados delas. O político agradece.

 

Porque enquanto a população briga entre si, ele permanece protegido. Enquanto o eleitor discute quem é pior, ninguém pergunta com a mesma intensidade quem está trabalhando. Enquanto as redes sociais são tomadas por ataques entre grupos políticos, problemas concretos continuam existindo. Saúde pública continua precisando de investimento. Educação continua enfrentando dificuldades. Segurança pública continua sendo uma preocupação. Infraestrutura continua deficiente em muitas regiões. Desigualdades continuam existindo. E o cidadão continua sendo convencido de que o principal problema está sempre no outro lado.

 

A política baseada em paixão é extremamente conveniente para quem está no poder. Um eleitor emocionalmente fiel é muito mais fácil de convencer do que um eleitor crítico. O eleitor crítico compara. Pesquisa. Lembra. Analisa. Cobra. O eleitor apaixonado justifica. Essa diferença muda tudo. Uma democracia saudável precisa de cidadãos capazes de dizer: “Eu votei nesse político, mas ele errou”. Essa frase deveria ser normal. Não deveria ser considerada traição.

 

Votar em alguém não significa assinar um contrato de defesa permanente. O voto não transforma um político em dono da razão. O eleitor não deve lealdade pessoal a quem ocupa cargo público. O político é que deve satisfação ao eleitor. É justamente por isso que a memória importa. Um país que esquece seus erros políticos rapidamente se torna um país fácil de manipular. Não porque seu povo seja necessariamente ignorante, mas porque a política moderna sabe trabalhar com distração. Um escândalo substitui outro. Uma promessa substitui outra. Um discurso substitui outro. Uma crise substitui outra. E, quando a população percebe, está discutindo novamente os mesmos problemas com os mesmos personagens, apenas utilizando slogans diferentes. O passado não desaparece porque deixou de ser assunto nas redes sociais. Uma decisão política continua produzindo consequências depois que o assunto deixa de ser comentado. Uma política pública mal planejada pode continuar prejudicando pessoas durante anos. Um recurso público mal utilizado não volta para os cofres simplesmente porque a população esqueceu. Uma promessa não cumprida não deixa de ser descumprida porque o político fez uma nova promessa. A memória política precisa ser maior do que o ciclo das redes sociais. É necessário lembrar quem prometeu.

 

Quem votou. Quem se omitiu. Quem denunciou. Quem defendeu. Quem mudou de posição. Quem assumiu responsabilidade. E quem tentou transferir a culpa. Também é necessário abandonar uma prática particularmente perigosa: escolher políticos apenas pelo que eles dizem que farão e ignorar completamente aquilo que já fizeram. Discurso é barato. Campanha é cuidadosamente produzida. Imagem pública é construída. O passado, porém, é concreto. É nele que o eleitor deveria procurar pistas sobre o futuro. Não existe garantia absoluta de que um político repetirá seus erros. Pessoas podem mudar. Governos podem aprender. Circunstâncias podem ser diferentes. Mas esquecer completamente o passado é outra coisa. Esquecer é abrir mão de uma das ferramentas mais importantes do eleitor: a capacidade de comparar discurso e prática. O político sabe disso. Por isso, perto das eleições, muitos tentam controlar a própria imagem. A linguagem muda. As roupas mudam. Os discursos mudam.

 

As alianças mudam. As prioridades apresentadas ao público mudam. Mas uma campanha eleitoral não deveria permitir que o passado fosse maquiado. O eleitor não deveria conhecer apenas o candidato que aparece no palanque. Deveria conhecer o político que existiu antes dele chegar ao palanque. Isso vale para todos. Direita. Esquerda. Centro. Governo. Oposição. Partido grande. Partido pequeno. Político popular. Político desconhecido. Não existe democracia madura quando a régua moral muda conforme o candidato. Se um ato é errado quando praticado pelo adversário, continua errado quando praticado pelo político de preferência. Se corrupção é condenável, deve ser condenada independentemente de quem esteja envolvido. Se abuso de poder é grave, deve ser grave independentemente do partido.

 

Se mentira é um problema, não deixa de ser problema porque foi contada pelo político que o eleitor admira.

 

A coerência deveria valer mais do que a conveniência. Mas a memória curta alimenta justamente o contrário. Ela permite que o político espere a poeira baixar. Permite que uma crise seja substituída por outra. Permite que um escândalo seja esquecido. Permite que uma promessa seja reciclada. Permite que um candidato volte ao cenário público com uma embalagem nova e conte novamente uma história que já deveria ter sido julgada pelos fatos. E o eleitor que esquece oferece a oportunidade perfeita. Não é necessário convencer alguém de que o passado foi bom. Basta fazer com que ele deixe de lembrar que foi ruim. É assim que muitos ciclos políticos conseguem se repetir. Não porque a população necessariamente concorde com tudo que aconteceu, mas porque a lembrança desaparece antes da próxima decisão. A memória política, portanto, não é apenas uma questão de conhecimento. É uma forma de proteção. Quem lembra compara. Quem compara identifica padrões. Quem identifica padrões desconfia. E quem desconfia cobra. O eleitor não precisa ser especialista em política para exercer seu papel com responsabilidade. Precisa, antes de tudo, não abandonar a própria capacidade de lembrar. Precisa olhar para trás antes de decidir quem merece confiança novamente.

 

Precisa entender que simpatia não é competência. Que discurso não é resultado. Que promessa não é entrega. Que popularidade não é caráter. Que carisma não é administração. Que um político falar aquilo que o eleitor deseja ouvir não significa que tenha capacidade ou intenção de fazer aquilo que prometeu. E precisa entender algo ainda mais básico: o voto não é uma declaração de amor. É uma escolha política. E escolhas políticas têm consequências. O eleitor pode mudar de opinião. Pode perdoar. Pode reconsiderar. Pode reconhecer mudanças reais. Pode decidir votar novamente em alguém que já decepcionou. Isso faz parte da democracia. O que não deveria fazer parte dela é o esquecimento automático. Perdoar é diferente de esquecer. Reconhecer uma mudança é diferente de apagar o passado. Dar uma segunda oportunidade é diferente de fingir que a primeira nunca existiu. O político que sabe que será lembrado terá mais dificuldade para tratar o eleitor como descartável. Já aquele que sabe que tudo será esquecido pode errar hoje e reconstruir a própria imagem amanhã. Por isso, a memória do eleitor também é uma forma de fiscalização. O político não deveria temer apenas a próxima eleição. Deveria temer a lembrança do cidadão.

Deveria saber que cada promessa pode ser recuperada. Cada discurso pode ser comparado. Cada decisão pode ser revisitada. Cada contradição pode voltar à tona. Cada erro pode ser lembrado. Isso não significa viver preso ao passado. Significa impedir que o passado seja apagado por conveniência. O Brasil não precisa de eleitores eternamente fiéis. Precisa de eleitores difíceis de enganar. Não precisa de cidadãos apaixonados por políticos. Precisa de cidadãos atentos ao poder. Não precisa de torcedores. Precisa de fiscalizadores. A democracia não termina quando o voto é depositado na urna. Na verdade, é justamente ali que começa a responsabilidade do eleitor. Depois da eleição, vem a cobrança. Vem o acompanhamento. Vem a fiscalização. Vem a comparação entre promessa e realidade. Vem a memória. E talvez seja exatamente isso que a política mais teme: um eleitor que se lembra. Porque um eleitor que esquece pode ser reconquistado com um novo slogan. Um eleitor que lembra exige explicações.

 

Um eleitor que esquece pode ser seduzido por uma promessa repetida. Um eleitor que lembra pergunta pelos resultados. Um eleitor que esquece pode defender seu político por paixão. Um eleitor que lembra consegue reconhecer que nenhum político está acima da crítica. É por isso que o eleitor precisa parar de tratar memória como detalhe. Memória política é responsabilidade. Quem esquece tudo entrega ao político o direito de recomeçar a própria história quantas vezes quiser. E político nenhum deveria ter esse privilégio. O eleitor não precisa carregar rancor. Precisa carregar consciência. Não precisa odiar ninguém. Precisa lembrar. Porque quando o cidadão esquece rápido demais, o político aprende que pode errar sem medo. E quando o político aprende que não será lembrado, a história tende a se repetir. A democracia precisa de eleições, mas precisa ainda mais de memória.

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