Mais uma mulher perdeu a vida porque decidiu que não queria mais permanecer em um relacionamento. Mais uma família foi destruída. Mais um nome se perdeu em uma estatística que cresce todos os anos. Mas talvez a pergunta mais importante não seja quem puxou o gatilho ou empunhou a faca. A pergunta é outra: o que aconteceu conosco? Em que momento deixamos de enxergar a liberdade de uma mulher como um direito e passamos a tratá-la como uma provocação?
Pense por alguns segundos. Imagine que sua filha ligue dizendo: "Pai, hoje vou terminar meu relacionamento." Em vez de desejar que ela seja feliz, você sente medo. Medo de que aquela conversa seja a última. Medo de que ela não volte para casa. Que sociedade é essa em que uma decisão tão comum precisa ser planejada como uma operação de guerra? Que tipo de mundo estamos construindo quando uma mulher precisa calcular o horário, o local e até quem estará por perto apenas para exercer o direito de ir embora?
Agora imagine que fosse o contrário. Imagine homens sendo orientados desde adolescentes a nunca terminarem um relacionamento sozinhos. Imagine pais dizendo aos filhos: "Tenha cuidado ao dizer que quer se separar." Imagine homens mudando de endereço, escondendo sua rotina e pedindo medidas protetivas porque a ex-companheira não aceita o fim. Quanto tempo levaríamos para considerar isso um absurdo? Um dia? Uma semana? Então, por que, quando isso acontece com mulheres, aprendemos apenas a conviver com a notícia?
O mais assustador não é o feminicídio. O mais assustador é a nossa capacidade de nos acostumarmos com ele. A indignação dura alguns dias. Depois, seguimos a vida. Até que outra mulher seja morta. E outra. E outra. Quando a repetição deixa de nos chocar, talvez a violência já tenha encontrado espaço também dentro da nossa indiferença.
Segundo o Fórum Brasileiro de Segurança Pública, cerca de oito em cada dez mulheres vítimas de feminicídio foram assassinadas pelo companheiro ou ex-companheiro. Mas elas não eram estatísticas. Eram pessoas. Tinham sonhos, planos para o futuro, filhos esperando em casa, pais que jamais imaginavam que precisariam escolher uma roupa para enterrá-las. Cada número representa uma vida interrompida e uma história que nunca poderá ser reescrita.
Talvez por isso as palavras da filósofa Simone de Beauvoir permaneçam tão atuais: "Nunca se esqueça de que basta uma crise política, econômica ou religiosa para que os direitos das mulheres sejam questionados. Esses direitos nunca são permanentes. Você terá que manter-se vigilante durante toda a sua vida." Essa vigilância não deve ser apenas das mulheres. Deve ser de toda a sociedade, porque quando uma mulher perde o direito de viver livremente, todos perdemos um pouco da nossa humanidade.
Existe uma frase que nunca deveria servir de justificativa: "Ele matou porque amava demais." Mas será que isso era amor? Ou apenas a tentativa de transformar posse em sentimento? Faça uma pergunta a si mesmo: quem você é quando ouve um "não"? Se a pessoa que você ama decidisse ir embora hoje, você respeitaria sua escolha ou acreditaria que ela lhe deve uma vida ao seu lado? É justamente na rejeição que o caráter se revela.
Talvez o problema comece muito antes da violência. Comece quando ensinamos alguns meninos que chorar é sinal de fraqueza, mas controlar uma mulher é demonstração de força. Quando tratamos a rejeição como humilhação. Quando confundimos ciúme com cuidado, insistência com romantismo e posse com compromisso. O feminicídio não nasce no dia do assassinato; ele é o desfecho de uma cultura que, durante muito tempo, naturalizou o controle sobre a vida das mulheres.
Quero fazer uma pergunta especialmente aos homens que estão lendo este texto: se a mulher que você ama dissesse hoje que não quer mais viver ao seu lado, você sofreria pela perda ou acreditaria que ela perdeu o direito de viver? A resposta talvez revele quem você é quando o amor deixa de ser correspondido. Amar alguém também é respeitar sua liberdade, inclusive quando essa liberdade não nos favorece.
Faço também um apelo às famílias. Eduquem seus filhos para entender que ninguém pertence a ninguém. Ensinem que ouvir um "não" dói, mas não mata. Que rejeição não destrói a dignidade de um homem. Que a verdadeira força não está em convencer alguém a permanecer, mas em respeitar sua decisão de partir. Ensinem seus filhos a admirar mulheres, e não a possuí-las.
Porque nenhuma mulher deveria precisar escolher entre a liberdade e a própria vida. Nenhuma mãe deveria enterrar uma filha porque ela apenas disse: "Não quero mais." E nenhuma mãe deveria enterrar um filho que nunca aprendeu que amar é libertar, e não controlar.
Não se trata de colocar homens e mulheres em lados opostos. Essa nunca foi uma guerra de sexos. Trata-se de humanidade. Trata-se de respeito. Trata-se de compreender que a liberdade de uma mulher não ameaça a dignidade de um homem. Pelo contrário, uma sociedade evoluída é aquela em que homens e mulheres podem fazer suas escolhas sem que o medo faça parte delas. Quando uma mulher precisa temer as consequências de dizer "não quero mais", todos nós falhamos como sociedade.
Talvez a pergunta não seja apenas "Onde foi que erramos?" Talvez ela seja ainda mais difícil: o que cada um de nós tem feito? por ação, por silêncio ou por indiferença para que continuemos errando? Enquanto não tivermos coragem de responder a essa pergunta, continuaremos lamentando mortes que poderiam ter sido evitadas. E nenhuma sociedade pode se considerar verdadeiramente civilizada enquanto uma mulher ainda precisar ter medo de exercer o mais básico dos direitos: o de escolher o próprio destino.
A luta nunca foi para que as mulheres tivessem mais direitos do que os homens. A luta sempre foi para que nenhuma pessoa precisasse renunciar à própria liberdade para continuar viva. Porque respeito não tem gênero. Humanidade também não.
