Outro dia, publiquei em meu Instagram que sou de direita. Logo, chegaram algumas perguntas: “Como pode um filósofo ser de direita?”
Na verdade, nem sempre foi assim.
Na década de 1980, filiei-me à esquerda. Participei de caminhadas, viagens a Brasília, pichações de muros e atividades do grêmio estudantil. Acreditava nas ideias de transformação social, revolução e construção de uma sociedade mais justa. Entretanto, foi a partir dos anos 2000 que a Filosofia começou a despertar em mim questões que, aos poucos, passaram a me incomodar.
Percebi que eu era um marxista sem ter lido Marx como filósofo. Passou o tempo e então compreendi que igual a muitos eu repetia suas frases, muitas vezes carregadas de interpretações ideológicas, como se fossem verdades incontestáveis, porém, sem conhecê-lo. Eu vivia nos anos 80 um ideal de mudança, uma promessa de revolução e hoje creio que não compreendia os fundamentos filosóficos daquilo que defendia.
No final da década de 90 entrei para a filosofia e então que conheci John Locke (1632-1704), Alexis de Tocqueville (1805-1859), Auguste Comte (1789-1857), Adam Smith (1723-1790), Karl Popper (1902-1994), entre outros. Cada um, a seu modo, apresentou-me novas perspectivas sobre a sociedade, a liberdade, o conhecimento, a política e o indivíduo que eu não tinha a mínima ideia.
Entretanto, foi em 2019, enquanto cursava o mestrado em Física na Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT), que uma experiência intelectual mudou definitivamente minha maneira de pensar. Nas horas vagas, dedicava-me à leitura para reencontrar aquela Filosofia que, até então, havia sido mais significativa em minha vida. E foi nesse percurso que Arthur Schopenhauer (1788-1860), Søren Kierkegaard (1813-1855) e Jean-Paul Sartre (1905-1980) ganharam uma importância decisiva em minha reflexão.
Para muitos, isso pode parecer absurdo: como alguém que estuda o Existencialismo pode deixar de ser marxista?
Minha resposta começa pela compreensão de que o Existencialismo, embora não seja uma corrente homogênea e não se reduza a uma única interpretação, dirige sua atenção a questões fundamentais da existência humana: a liberdade, a responsabilidade, a angústia, a escolha e o sentido da vida. Enquanto determinadas abordagens marxistas privilegiam as estruturas econômicas e sociais para explicar a condição humana, o Existencialismo coloca em primeiro plano a experiência concreta do indivíduo diante de sua própria existência.
Não se trata de afirmar que as estruturas sociais não importam. Seria ingenuidade ignorar que a economia, a cultura, a política e as condições materiais influenciam nossas escolhas. A questão é outra, isto é, até que ponto essas estruturas determinam completamente aquilo que somos? Até que ponto o ser humano pode ser compreendido apenas como resultado das condições históricas nas quais está inserido?
Foi a partir de então que comecei a discordar de determinadas interpretações do marxismo que conheci ao longo de minha trajetória política. Parafraseando a crítica de Marx a Hegel, arrisco dizer que, para mim, Marx acabou virando o mundo de cabeça para baixo. Na interpretação que passei a questionar, o homem parecia perder sua autonomia diante da realidade social, tornando-se quase um instrumento das estruturas que o condicionam.
Mas será que somos apenas produtos das circunstâncias? Somos somente o resultado de uma classe social, de uma condição econômica ou de um processo histórico? Se assim fosse, onde estaria a responsabilidade individual? Que sentido teria falar em escolhas, consciência e transformação pessoal?
Foi o Existencialismo que me levou a enfrentar essas perguntas.
Em Sartre, encontrei a ideia de que a existência precede a essência. Em outras palavras, o ser humano não nasce com uma natureza inteiramente definida, como se sua vida estivesse previamente escrita. Ele se constrói por meio de suas escolhas e de suas ações. Isso não significa que seja absolutamente livre ou que possa ignorar as circunstâncias que o cercam. Significa, antes, que não pode transferir integralmente a responsabilidade por aquilo que faz para a sociedade, para a história ou para a ideologia.
Em Kierkegaard, encontrei a singularidade do indivíduo, a angústia da escolha e a necessidade de assumir a própria existência. Em Schopenhauer, deparei-me com uma investigação profunda sobre a vontade, os desejos e as contradições que atravessam a condição humana. Embora suas filosofias sejam diferentes e não devam ser confundidas, os três me ajudaram a deslocar o olhar: das explicações gerais sobre o mundo para as questões fundamentais do indivíduo que vive, escolhe, sofre e procura compreender a si mesmo.
Foi assim que comecei a perceber que nenhuma ideologia deveria ocupar o lugar da Filosofia. Uma ideologia pode oferecer respostas, organizar interpretações e mobilizar pessoas em torno de objetivos comuns. A Filosofia, porém, deve conservar o direito de questionar essas respostas, inclusive aquelas que parecem representar as causas mais nobres.
Foi também assim que compreendi que pensar não é repetir Marx, Locke, Smith, Popper ou qualquer outro pensador. Pensar é dialogar com eles, reconhecer suas contribuições, identificar seus limites e, sobretudo, ter coragem de discordar. Um filósofo que não pode questionar as próprias convicções corre o risco de transformar o pensamento em doutrina e a reflexão em mera reprodução de ideias.
É nesse sentido que o Existencialismo se tornou fundamental para minha maneira de compreender o homem. Não como um simples instrumento da história, nem como uma peça passiva de uma engrenagem social, mas como um indivíduo que, mesmo condicionado por circunstâncias que não escolheu, precisa responder pelo modo como conduz sua existência.
A sociedade nos influencia, mas não precisa ser a autora exclusiva de nossa história. As circunstâncias podem limitar nossas possibilidades, mas não explicam necessariamente todas as nossas decisões. Entre aquilo que recebemos do mundo e aquilo que fazemos de nós mesmos existe um espaço de reflexão, escolha e responsabilidade.
E foi nesse espaço que comecei a me afastar da esquerda e a me aproximar da direita.
Não foi uma mudança repentina, tampouco uma decisão tomada por conveniência. Foi um processo intelectual, construído por leituras, dúvidas, confrontos e revisões de pensamento. Minha mudança política não nasceu da rejeição ao conhecimento, mas justamente da necessidade de conhecer mais, questionar melhor e deixar de aceitar determinadas respostas apenas porque pertenciam ao campo ideológico com o qual eu me identificava.
Isso não significa que todos os filósofos devam ser de direita, assim como não significa que ser de esquerda seja incompatível com a Filosofia. O pensamento filosófico não pertence a um único campo político. O que considero incompatível com a atitude filosófica é a submissão incondicional a qualquer ideologia, seja ela de esquerda ou de direita.
Afinal, se a Filosofia nos ensina alguma coisa, é que devemos desconfiar das certezas que dispensam o pensamento.
Hoje, quando alguém me pergunta como um filósofo pode ser de direita, devolvo a pergunta: por que não poderia? Ser filósofo não significa pertencer a uma corrente política específica. Significa, antes de tudo, não abrir mão da liberdade de pensar.
Não reivindico o direito de estar sempre certo. Reivindico o direito de mudar de ideia quando as minhas convicções já não resistem às perguntas que faço a mim mesmo.
Talvez essa seja uma das maiores dificuldades de nossa época: compreender que mudar de posição não é necessariamente trair o passado. Às vezes, é reconhecer que precisamos dele para entender quem nos tornamos.
Fui de esquerda, participei de suas mobilizações e acreditei em suas promessas. Hoje, sou de direita, mas não pretendo transformar essa posição em uma nova prisão intelectual. Continuo sendo um filósofo que pergunta, dúvida, lê e procura compreender.
Porque, antes de ser de direita ou de esquerda, sou alguém que escolheu pensar.
E, para mim, a Filosofia começa justamente quando deixamos de aceitar que outros pensem por nós.
