Sou católica, mas, curiosamente, também frequento igrejas evangélicas. Entro, escuto, observo, aprendo e respeito. Não vejo problema algum em conhecer outras formas de viver a fé sem precisar abandonar aquilo em que acredito.
Também respeito outras religiões. Não preciso concordar com tudo para entender que existe uma pessoa por trás daquela crença, com sua própria história, cultura e maneira de enxergar o mundo.
O problema começa quando a religião deixa de ser uma experiência de fé e passa a funcionar como uma competição. E isso é algo que, infelizmente, vemos com frequência.
Quantas vezes um católico não ouve: “Você vai para o inferno”, “isso é idolatria”, “vocês adoram imagens”?
Mas eu faço uma pergunta simples: quantas vezes um católico chega até um evangélico e diz: “Você vai para o inferno porque não é católico”?
Existem católicos intolerantes? Claro. Existem evangélicos intolerantes? Também. Nenhuma religião está livre de pessoas que confundem convicção com superioridade.
Mas não consigo entender a necessidade de algumas pessoas de transformar a fé em um julgamento permanente sobre a vida dos outros. E quando o assunto são as imagens, parece existir uma confusão ainda maior.
Uma imagem de madeira, gesso ou qualquer outro material não é Deus. Ela não possui, por si só, poder divino. Para o católico, ela pode representar alguém importante para sua fé, assim como uma fotografia representa uma pessoa que amamos sem ser a própria pessoa.
Ninguém olha para uma fotografia da mãe e acredita que o papel seja a mãe. Ninguém olha para o retrato de uma pessoa famosa e acredita que aquela imagem tenha se transformado na pessoa retratada.
Então por que, quando se trata de uma imagem religiosa, algumas pessoas automaticamente concluem que existe idolatria? É preciso primeiro entender o que o outro realmente acredita antes de condená-lo.
E existe algo ainda mais curioso: vivemos em uma sociedade cheia de “ídolos”. Admiramos artistas, jogadores, influenciadores e políticos. Passamos horas olhando para uma tela, carregamos o celular para todos os lugares e, muitas vezes, não conseguimos passar algumas horas sem ele.
Mas quando o assunto é uma imagem religiosa, rapidamente aparece a acusação. Talvez o problema não esteja na imagem. Talvez esteja na interpretação que fazemos dela.
Eu não estou dizendo que todas as religiões são iguais, nem que devemos abandonar nossas convicções. Pelo contrário: cada pessoa tem o direito de acreditar profundamente naquilo que considera verdadeiro. O que questiono é a necessidade de transformar essa certeza em arrogância.
Se um evangélico acredita que sua religião é a verdadeira, ele tem esse direito. Se um católico acredita na sua Igreja, também. Se alguém segue outra religião, igualmente merece respeito.
Podemos conversar, questionar, discordar e até tentar convencer uns aos outros. O que não deveríamos fazer é utilizar a fé como justificativa para humilhar. E principalmente: quem somos nós para decidir quem vai para o inferno?
Eu sou católica e acredito em Deus, mas não me considero dona da verdade absoluta sobre o destino de ninguém. Não conheço completamente o coração das pessoas, suas intenções, suas dores, sua história ou aquilo que viveram. Por isso, prefiro ter fé sem precisar condenar o próximo.
Até porque, quando penso em Jesus, penso muito mais em amor, misericórdia, perdão e acolhimento do que em uma disputa para descobrir qual denominação religiosa é superior.
E há uma questão histórica que também merece reflexão: Jesus não fundou as denominações religiosas modernas que conhecemos hoje. Ele viveu em um contexto judaico, e as estruturas, igrejas e denominações que conhecemos foram se desenvolvendo ao longo da história.
Por isso, talvez devêssemos olhar menos para o nome escrito na fachada de um templo e mais para aquilo que estamos fazendo com aquilo que acreditamos. No final, a minha pergunta é simples:
Se a minha fé me torna incapaz de respeitar quem pensa diferente, o problema está na religião ou na maneira como eu a estou vivendo?
Porque, para mim, ter fé não deveria significar olhar para o outro e dizer “você está condenado”. Deveria significar olhar para dentro e perguntar: “Estou me tornando uma pessoa melhor?”
Eu continuo sendo católica. Continuo tendo minhas convicções e minha maneira de viver a fé. Mas não preciso diminuir a religião de ninguém para engrandecer a minha. Fé não deveria ser uma guerra para provar quem está certo. Deveria ser uma escolha que nos ensina a sermos melhores seres humanos.
