Em 1985, quando ainda era estudante secundário, uma ideia despertou minha curiosidade e jamais deixou de me acompanhar: a possibilidade de viajar no tempo e, sobretudo, a autonomia das máquinas. Naquele ano, assisti ao filme ‘O Exterminador do Futuro’, cuja narrativa apresentava um futuro em que os seres humanos haviam criado a Skynet, uma inteligência artificial que, ao adquirir autonomia, passou a considerar a humanidade uma ameaça à sua própria existência.
Aquela ficção me impressionou profundamente. Desde então, comecei a ler sobre o assunto e a questionar: seria possível que as máquinas se tornassem independentes dos seres humanos?
Durante muito tempo, duvidei dessa possibilidade. Afinal, olhando para o próprio ser humano, parecia-me difícil compreender como uma máquina poderia adquirir autonomia. A psicanalise de Sigmund Freud (1856-939) já nos afirmavam: agimos movidos por desejos. Desejamos prazer, conforto, segurança e satisfação. São esses desejos que nos levam a produzir ferramentas, desenvolver tecnologias e construir máquinas. Nesse sentido, sempre considerei que não são simplesmente os meios de produção que constroem o ser humano, como uma interpretação do pensamento de Karl Marx (1818-1883) poderia sugerir, mas também os desejos humanos que impulsionam a construção dos meios de produção.
As máquinas nasceram para satisfazer necessidades humanas. Mas será que poderiam, algum dia, deixar de ser instrumentos e passar a determinar suas próprias ações?
Com o passar dos anos, tornei-me filosofo, físico, químico e matemático. Minha formação científica trouxe novas perspectivas para aquela antiga inquietação. Duas ideias, particularmente, fizeram-me reconsiderar a possibilidade de autonomia das máquinas.
A primeira é que o mundo material não pode ser compreendido sem a noção de movimento. A matéria está submetida a transformações e interações que obedecem a determinadas regularidades. A segunda é que essas regularidades podem ser descritas por uma linguagem lógica e matemática.
Observemos o movimento da água. Naturalmente, ela flui de regiões de maior potencial gravitacional para regiões de menor potencial. Da mesma forma, o calor, em sua transferência espontânea, flui de um corpo de maior temperatura para outro de menor temperatura. São fenômenos descritos por leis físicas, como a segunda lei da termodinâmica.
O que esses exemplos nos revelam? Que a natureza apresenta padrões. Há uma lógica que pode ser reconhecida, descrita e expressa em conceitos e leis matemáticas. O movimento está submetido a condições e relações que tornam possível compreender os fenômenos e, em determinadas circunstâncias, prever seus resultados.
Foi nesse contexto que voltei a pensar em Pierre-Simon Laplace (1749-1827), matemático francês que formulou uma das mais conhecidas concepções deterministas da ciência. Em sua hipótese, se uma inteligência fosse capaz de conhecer todas as forças da natureza e a posição de todos os seus elementos em determinado instante, poderia calcular o passado e o futuro do universo.
Essa inteligência, conhecida como o demônio de Laplace, representa a ideia de que o conhecimento completo das condições iniciais, associado às leis da natureza, permitiria determinar a evolução dos acontecimentos. Entretanto, essa capacidade estaria muito além das possibilidades humanas. Nossa mente é limitada. Não conseguimos reunir todas as informações necessárias para compreender e calcular a totalidade dos fenômenos.
Mas será que essa limitação também se aplicaria às máquinas?
Lembro-me de uma tarde de domingo em que brincava de bola com meu filho. Ele tinha onze anos. Enquanto jogávamos, um avião passou pelo céu. Meu filho, olhando para a direção em que a aeronave se deslocava, perguntou: “Pai, olhando a direção para onde vai o avião, é possível saber de onde ele vem?”
Respondi que não. Naquele instante, observando apenas sua direção, não seria possível determinar exatamente de qual cidade o avião havia partido.
Entretanto, aquela pergunta simples me fez pensar. O avião não estava se deslocando ao acaso. Seu movimento obedecia a um plano de voo, a um sistema de navegação e a um conjunto de condições físicas. Sua trajetória podia ser descrita por relações matemáticas. Assim como outros fenômenos da natureza, aquele movimento seguia um padrão.
A pergunta do meu filho, aparentemente trivial, acabou me conduzindo novamente à questão que me acompanhava desde 1985: se os movimentos podem ser descritos por sistemas lógicos, e se as máquinas são capazes de processar esses sistemas, até que ponto podemos afirmar que elas jamais serão autônomas?
Hoje, quando a inteligência artificial ocupa um espaço cada vez maior em nossas vidas, essa questão ganha uma dimensão ainda mais significativa.
Os computadores operam por meio de sistemas lógicos. Os softwares são construídos para interpretar informações, reconhecer padrões e executar operações. Além disso, o conhecimento humano acumulado ao longo dos séculos encontra-se, em grande parte, registrado em sistemas digitais. As leis físicas, teorias químicas, modelos matemáticos e pesquisas científicas estão todas disponíveis em redes de computadores.
É verdade que o acesso a essas informações não significa, necessariamente, compreendê-las de maneira integral. Tampouco significa que uma máquina possua automaticamente todas as condições necessárias para prever o futuro. Ainda assim, não podemos ignorar a capacidade crescente dos sistemas computacionais de reunir informações, identificar regularidades e produzir respostas a partir delas.
Foi então que passei a considerar uma possibilidade que antes me parecia improvável: talvez as máquinas não precisem desenvolver desejos semelhantes aos nossos para adquirir autonomia.
O ser humano constrói máquinas porque deseja. Mas uma máquina poderia agir não em função do desejo, e sim de uma estrutura lógica capaz de orientar suas operações. Se um sistema puder reconhecer seu estado inicial, interpretar as condições do ambiente, estabelecer relações entre informações e determinar ações coerentes com seus objetivos, talvez possa desenvolver formas de autonomia que ainda estamos aprendendo a compreender.
Isso não significa afirmar que a inteligência artificial já possua consciência, vontade própria ou a capacidade de compreender o mundo exatamente como nós. Significa reconhecer que a autonomia de uma máquina pode ser pensada para além das características que definem a autonomia humana.
Talvez o maior equívoco seja imaginar que uma máquina somente poderá se tornar independente quando desenvolver desejos semelhantes aos nossos. A possibilidade que hoje me inquieta é outra: a de que a lógica, associada à capacidade de processamento e à disponibilidade de informações, possa constituir um caminho diferente para a autonomia.
Em 1985, essa questão nasceu diante de uma tela de cinema. Décadas depois, ela retorna com uma força muito maior. Não sei se as máquinas um dia serão verdadeiramente independentes. Mas já não considero essa possibilidade absurda.
Afinal, se o mundo pode ser descrito por relações lógicas, e se as máquinas são capazes de operar sobre essas relações, talvez a pergunta mais importante não seja se elas poderão pensar como os seres humanos.
Talvez devamos perguntar: o que acontecerá quando uma máquina for capaz de compreender, interpretar e agir sobre a lógica do mundo sem precisar de nós para determinar cada um de seus passos?
