Opinião

DESPERTA GUARAÍ: UNIR FORÇAS E RESGATAR A DIGNIDADE

Foto de Wilson Ricardo Silveira

Por mais que os discursos e palanques tendam a desenhar um Tocantins dividido por três ou quatro grandes centros, posso dizer que os números gritam o óbvio. Guaraí se consolidou por si só como a principal veia logística do Estado e a 7ª economia tocantinense, e por vezes a 6ª, ultrapassando Colinas do Tocantins, apesar da inércia governamental, ostentando um Produto Interno Bruto (PIB) de 1,13 bilhão. Em população, Guaraí é a 8ª cidade do Tocantins, com um eleitorado de mais de 17 mil eleitores aptos, que daria para eleger sozinho nesta eleição: Ivory de Lira (eleito com 15.404 votos), ou Paulinho do Bonifácio (eleito com 13.809 votos), ou Kátia Chaves (eleita com 13.329 votos) ou quase duas vezes o número de votos do Deputado Marcus Duarte (eleito com 9.733 votos). Mas o que deveria ser traduzido em respeito institucional ou protagonismo na estrutura de governo do Estado transforma-se em um paradoxo incômodo, pois economicamente gigante, Guaraí tem sido arremessado para a invisibilidade.

 

Posso dizer, sem sombras de dúvidas, que Guaraí não se limita às suas fronteiras; que, na prática, a cidade funciona como uma verdadeira capital regional, centralizando serviços essenciais para mais de 20 municípios em seu entorno e impactando diretamente a vida de mais de 140 mil habitantes. Pessoas que vivem na região Centro-Norte do estado dependem de Guaraí para o comércio, saúde, serviços bancários e educação. Essa centralidade é catapultada por uma geografia estratégica: cortada pela BR-153, a cidade é o ponto natural de escoamento do meio-norte brasileiro. E, para o futuro, temos ainda mais. Projetos avançam para transformar Guaraí em um dos maiores entroncamentos multimodais do país, ligando a Ferrovia Norte-Sul à Transnordestina, ligando o município diretamente aos portos de Pecém (CE) e Suape (PE).

 

Como explicar que um polo tocantino seja esquecido nas grandes decisões em planos de governo ou timidamente aparecendo? A resposta para essa injustiça não deve ser buscada somente nos gabinetes em Palmas, mas também dentro das nossas casas. Guaraí padece de uma autofagia política. O município que outrora demonstrou força elegendo deputados e colocando filhos desta terra (natos ou de coração) no primeiro escalão do governo estadual, hoje assiste ao enfraquecimento de seu protagonismo, devido à desunião de suas lideranças ou ainda ao anonimato de seus líderes e capacitados gestores.

 

Nossa história prova que temos quadros qualificados em Guaraí, pessoas que já ocuparam ou ainda ocupam espaços de relevância, com nomes como o de Manoel Bueno no passado, Saboinha não tão distante e atualmente Mikeias Feitosa. Contudo, essas conquistas, em vez de servirem para blindar e expandir o espaço da cidade, costumam despertar o pior lado da política paroquial. É doloroso notar que líderes de Guaraí se prestam a ir a Palmas não para buscar recursos e melhorias para a nossa cidade, mas unicamente para tramar nos bastidores, puxar o tapete e criar intrigas contra conterrâneos que alcançaram alguma projeção.

 

Essa fragmentação deixa uma brecha para “candidatos paraquedistas” – políticos sem qualquer histórico ou compromisso com o município ou com a nossa gente, candidatos que se achegam a cada quatro anos ou mesmo os que nem aparecem e tiraram os seus 39, 40, 45 ou centenas de votos. Este canibalismo político vai muito além da perda de emendas parlamentares e investimentos que poderiam vir para Guaraí. Ela leva também a nossa dignidade e some com a nossa identidade.

 

Guaraí não é feita só de asfalto, trilhos e números do PIB; uma cidade é feita de alma, de memória e de gente. Ao nos dividirmos politicamente, permitimos também o enfraquecimento da preservação de nossa cultura e de nossas tradições. Guaraí precisa voltar a se ver com orgulho. Respeitar costumes e a identidade de um povo, sabendo reconhecer o suor, fé e coragem daqueles que ergueram essa cidade no passado e continuam fazendo a sua história no presente, que verdadeiramente seja o primeiro passo para a nossa emancipação de fato. Não podemos deixar que, em nome do progresso econômico, ou ainda o lucro de uns e outros, atropele nossa memória cultural. Precisamos urgentemente unificar as nossas forças. Lideranças políticas, empresariais, produtores rurais, movimentos culturais e cidadãos comuns devem compreender que Guaraí é maior que qualquer vaidade partidária ou implicância de momento. Uma economia bilionária e uma região de mais de 140 mil pessoas não podem aceitar o papel de figurantes.

 

É chegada a hora de devolver a dignidade que Guaraí merece por direito, figurada em sua importância por direito de herança e de trabalho. Para que o Palácio Araguaia, José Wilson Siqueira Campos, passe a reconhecer o tamanho de nosso município. Precisamos primeiro aprender a respeitar e valorizar quem é da terra. É tempo de enterrar o boicote caseiro, blindar as nossas lideranças, exaltar nossa cultura e marchar unidos. Só assim Guaraí deixará de ser apenas um lugar onde se buscam votos para retornar ao seu lugar de direito, o farol das nossas lideranças e do desenvolvimento, para, verdadeiramente, tornar, com a devida vênia, a Capital do Interior do Tocantins.

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