Tem-se observado uma grande mudança na sociedade. Aquilo que antes era valorizado — a convivência duradoura, os laços fortes, o senso de coletividade e de propósito comum — hoje parece dissolver-se com facilidade. A vida se tornou breve nos vínculos, rápida nas relações, instável nas emoções. Tudo escorre pelas mãos… derrete… torna-se líquido… e some.
Ao olhar para o passado, recordamos convivências mais sólidas, amizades verdadeiras, respeito mútuo, vida compartilhada. Hoje, porém, ao abrir os olhos, percebemos que esses valores já não aparecem com tanta frequência. O que aconteceu com o encontro, com a visita aos familiares, com o cuidado pelos amigos? Onde se perdeu o desejo de caminhar junto?
As perspectivas deixaram de ser a longo prazo. A preocupação com o outro, o cuidado, o empenho por causas coletivas — tudo isso se tornou raro. Grandes projetos sociais, sonhos de transformação, união de forças… quase não se vê mais. A coletividade foi perdendo espaço, até quase desaparecer.
Vivemos em um modelo de sociedade moldado para consumir, acelerado, centralizado no “eu”. Partilhar tornou-se difícil. Ouvir, ajudar, dedicar tempo, mais difícil ainda. Relações demandam esforço, trabalho e paciência — e isso parece não interessar a muitos.
A liquidez surge quando se perde a capacidade de refletir sobre o outro. Quando fugimos das experiências difíceis, buscando zonas de prazer imediato. A satisfação individual tornou-se o centro, muitas vezes sem horizonte, sem referência, sem planejamento. Como construir um projeto de vida ou sonhar com estabilidade se tudo é tão volátil?
Assim, a incapacidade de fixar raízes cresce. Projetos desmancham. Valores escorrem. O ser humano vai ficando para trás, substituído pelas vantagens rápidas e descartáveis. Surge a dúvida: até que ponto devemos moldar-nos ao que a sociedade exige? É possível estar no mundo conectado, globalizado, sem se submeter aos padrões que sufocam a essência humana?
Houve um tempo em que se acreditava na força da união, na transformação possível, no poder de somar esforços. Hoje, esses ideais parecem ter se desfeito, assim como tantas outras bases que sustentavam relacionamentos, comunidades e esperanças.
A hermenêutica social nos convida a interpretar: o que estamos vivendo? Por quê? Para quê? Como construir o futuro se os vínculos se rompem com tanta facilidade? Como formar uma família, edificar relacionamentos e fortalecer laços se qualquer conflito já é motivo para desconexão? Como criar estabilidade se tudo ao redor pede velocidade e superficialidade?
Este é um texto de cunho meramente reflexivo, um convite à pausa, ao olhar para dentro e ao olhar para o outro.
E que a reflexão seja guiada pelo amor que não se dissolve:
“Que o amor de vocês aumente cada vez mais em conhecimento e em toda percepção, para discernirem o que é melhor, a fim de serem puros e irrepreensíveis até o dia de Cristo, cheios do fruto da justiça, fruto que vem por meio de Jesus Cristo, para a glória e louvor de Deus.” (Filipenses 1:9-11)
