Opinião

DEPOIS DAS URNAS O BRASIL VAI ENCARAR SUAS ESCOLHAS

Foto de Giovana Evangelista da Silva

E agora, Brasil? Depois de uma campanha atravessada por promessas, ataques, acusações, discursos inflamados e uma quantidade quase inesgotável de opiniões, chegamos novamente ao momento em que o eleitor precisa fazer aquilo que talvez seja uma das tarefas mais difíceis da democracia: escolher. E escolher, ao contrário do que muitos parecem acreditar, não deveria significar simplesmente apontar para o candidato que mais agrada, repetir aquilo que ouviu nas redes sociais ou votar movido pelo ódio ao adversário. Uma eleição não é um campeonato. O candidato não é jogador, o eleitor não é torcedor e o país não é um estádio onde metade comemora enquanto a outra metade espera a próxima derrota. O que está em jogo é muito maior do que isso.

 

O segundo turno deveria ser um momento de reflexão, mas será que estamos realmente refletindo? Ou apenas procurando argumentos para justificar uma escolha que já fizemos emocionalmente? É cada vez mais comum encontrar pessoas que defendem políticos como se estivessem defendendo familiares, incapazes de reconhecer qualquer erro daquele lado e igualmente incapazes de reconhecer qualquer acerto do outro. Transformamos adversários políticos em inimigos pessoais, e, nesse processo, a razão vai sendo empurrada para fora da conversa. O problema é que o Brasil não será governado pelo nosso sentimento. Será governado por decisões, leis, gastos, políticas públicas e escolhas que terão consequências concretas na vida de quem votou e na vida de quem não votou.

 

E talvez seja justamente aí que esteja nossa maior responsabilidade. O voto não é uma declaração de amor. Não precisamos amar candidato algum. Não precisamos colocar político em pedestal, criar fã-clube ou tratar governante como uma espécie de salvador da pátria. Governante é servidor público. Recebe poder porque o povo, por meio da democracia, decidiu entregá-lo temporariamente. E quem recebe poder precisa ser cobrado. Precisamos parar de agir como se fiscalizar o nosso próprio candidato fosse uma traição. Não é. Se ele erra, devemos apontar o erro. Se acerta, devemos reconhecer. Se promete, devemos cobrar. Se gasta dinheiro público, devemos perguntar onde foi parar. Se toma uma decisão que prejudica a população, não deveríamos defendê-la apenas porque veio do lado político que escolhemos.

 

Porque existe uma verdade que muitos preferem esquecer: o dinheiro público não é dinheiro do político. É dinheiro da população. A escola que não foi construída, o posto de saúde que não recebeu estrutura, a estrada que continua abandonada, o serviço público que não funciona e a obra que nunca termina não são apenas números em uma planilha. São consequências. E, enquanto discutimos nas redes sociais quem é mais corrupto, mais inteligente, mais patriota ou mais preparado, existem pessoas esperando por atendimento médico, segurança, educação, emprego e dignidade. O cidadão não deveria precisar escolher entre defender um político e defender o próprio país.

 

Também precisamos falar sobre a memória. O eleitor brasileiro tem memória curta quando convém. Um escândalo é esquecido quando envolve o político de estimação. Uma promessa impossível passa a ser aceitável quando vem do candidato preferido. Uma informação falsa é compartilhada milhares de vezes quando confirma aquilo que já queríamos acreditar. E assim construímos uma política baseada não necessariamente na verdade, mas naquilo que nos dá prazer ouvir. É muito mais confortável acreditar que o nosso lado está sempre certo do que admitir que talvez tenhamos errado.

 

Mas democracia exige maturidade para reconhecer erros. E maturidade também significa aceitar que o candidato escolhido por nós pode perder. A democracia não deixa de existir porque o resultado não corresponde à nossa vontade. O adversário não deixa de ser cidadão porque votou diferente. O país não deixa de ser nosso porque outro candidato venceu. E talvez uma das coisas mais perigosas da política atual seja justamente essa incapacidade de aceitar que podemos discordar sem desejar a destruição uns dos outros.

 

No segundo turno, portanto, não deveríamos perguntar apenas "quem eu gosto?". Deveríamos perguntar quem está preparado para governar. Quem possui propostas possíveis? Quem demonstra responsabilidade? Quem respeita as instituições? Quem sabe lidar com dinheiro público? Quem tem histórico que merece ser analisado? Quem apresenta soluções e quem apenas apresenta inimigos? Quem fala sobre o futuro e quem passa a campanha inteira tentando ressuscitar o passado para conquistar votos?

 

Porque discurso bonito não paga salário. Hashtag não constrói hospital. Briga na internet não reduz a criminalidade. Vídeo editado não administra um país. E promessa, quando não vem acompanhada de planejamento, orçamento e responsabilidade, pode ser apenas uma embalagem bonita para um problema que será entregue à população depois.

 

É preciso parar de esperar que um único presidente resolva todos os problemas do Brasil. Nenhum político possui uma varinha mágica. O país é complexo, possui desigualdades históricas, problemas econômicos, dificuldades sociais, desafios na segurança, na educação, na saúde e na administração pública. Quem promete resolver tudo rapidamente talvez esteja tentando conquistar mais votos do que apresentar uma solução real. E quem acredita cegamente nessas promessas precisa entender que política não é conto de fadas.

 

Por isso, antes de apertar o botão, talvez seja necessário fazer algo que parece simples, mas que muitos abandonaram: pensar. Pesquisar. Comparar. Questionar. Desconfiar inclusive daquilo que confirma nossas próprias opiniões. Porque o eleitor que pesquisa apenas para encontrar motivos para votar no candidato que já escolheu não está buscando informação; está buscando confirmação.

 

E depois da eleição? Depois da eleição começa a parte que muitos esquecem. Fiscalizar. Cobrar. Acompanhar. Questionar. Não abandonar a política até a próxima campanha. Porque democracia não acontece apenas no dia da votação. Ela continua quando o cidadão pergunta onde está o dinheiro, por que determinada obra está parada, por que determinado serviço não funciona e por que determinada decisão foi tomada.

 

O político pode vencer nas urnas, mas não recebe o direito de ser intocável. Recebe uma responsabilidade. E nós, eleitores, não entregamos nossa consciência junto com o voto.

 

Então, e agora, Brasil? Agora precisamos escolher sem transformar política em religião, sem transformar candidato em ídolo e sem transformar adversário em inimigo. Precisamos entender que nenhum político merece nossa cegueira. Nenhum partido merece nossa submissão. Nenhum discurso merece ser aceito sem questionamento. O Brasil é maior que qualquer nome, maior que qualquer partido e, certamente, maior que qualquer disputa eleitoral.

 

A urna vai registrar uma escolha. Mas a história registrará suas consequências.

 

E quando a festa acabar, quando os discursos terminarem, quando as bandeiras forem guardadas e as redes sociais encontrarem outro assunto para discutir, quem continuará aqui seremos nós.

 

O político passa. O mandato termina. A eleição acaba. Mas o Brasil permanece.

 

E é justamente por isso que, desta vez, talvez a pergunta mais importante não seja "quem vai ganhar?".

 

A pergunta é: o que o Brasil vai ganhar ou perder com a nossa escolha?

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