Opinião

COPA, VOTO E CIDADANIA: O ESPORTE E A GEOPOLÍTICA.

Foto de Fernando Henrique Freire Machado

Confesso que pouco estou acompanhando essa Copa. Também não estou vendo muita empolgação nas ruas e no comércio. Toda Copa do Mundo é celebrada como uma festa de união global, mas ela não acontece sem uma dose de realidade. O esporte é profundamente moldado pela geopolítica, pelas eleições e pelo conceito de cidadania, que, no Direito, significa o direito de ter direitos, circular livremente e ser respeitado, independentemente de onde você nasceu. Eu sou apaixonado pelo Direito.

 

O contraste entre os campos de futebol e as barreiras políticas nas fronteiras revela que, enquanto o dinheiro do entretenimento viaja sem problemas, o ser humano ainda enfrenta muros invisíveis e perseguições. A paz mundial deveria ser a regra do jogo, mas muitas vezes vira apenas um discurso comercial.

 

Essa contradição atinge níveis surreais quando o próprio show de abertura da competição acontece no exato momento em que um país organizador bombardeia outra nação que está ali para disputar o torneio. É o ápice da hipocrisia geopolítica: festejar a "união entre os povos" nos palcos iluminados enquanto se jogam bombas no território do adversário. Além da violência militar externa, a violência civil interna se manifesta com o retorno de Trump ao poder, onde as regras de imigração endureceram ao extremo. O que deveria ser um ambiente acolhedor virou palco de abusos por parte da polícia imigratória (ICE). Árbitros premiados, jornalistas e torcedores estrangeiros, principalmente africanos e do Oriente Médio, enfrentam prisões em aeroportos, vistos negados de última hora e um policiamento pesado baseado na cor da pele perto dos estádios. Sob a justificativa de segurança, o Estado avança sobre as liberdades, rasgando o verdadeiro espírito pacífico do futebol que prega a fraternidade.

 

Eu lembro que Brasil escolheu um caminho completamente oposto quando sediou o torneio em 2014... aquela do trágico 7x1. Amparado por sua Constituição e pela tradicional hospitalidade de seu povo, nosso país editou a Lei Geral da Copa, uma exigência da FIFA que hoje é submissa ao Trump.  Essa lei facilitou ao máximo a entrada de estrangeiros. Quem tinha ingresso entrava de graça, sem taxas ou burocracias sufocantes. Juridicamente, essa postura mostrou que o Brasil enxerga o imigrante não como uma ameaça policial, mas como um semelhante digno de acolhida. Foi a aplicação prática do princípio constitucional da cooperação entre os povos, da prevalência dos direitos humanos e do repúdio ao isolamento, provando que é possível organizar um evento mundial estendendo a mão, e não fechando o punho.

 

A grande lição que fica ao cruzar o esporte com as eleições é que o voto define quem dita as regras do jogo social. E esse ano tem eleição. Quando governos escolhem o preconceito, o isolamento e as armas, a cidadania adoece e a paz é sufocada. O futebol é um patrimônio da humanidade, uma ferramenta poderosa que deveria servir para desarmar conflitos e celebrar a vida. Nosso Pelé certa vez parou uma guerra com o futebol. O verdadeiro brilho do esporte não está nos troféus, mas na capacidade de fazer com que os direitos humanos, a diplomacia e a dignidade valham tanto dentro quanto fora dos estádios.

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