Opinião

COMÍCIOS AINDA CONVENCEM OU REÚNEM OS JÁ CONVENCIDOS?

Foto de Marcelo Gris

Durante décadas, o comício foi uma das principais ferramentas de uma campanha eleitoral. Era no palanque, muitas vezes montado sobre carrocerias de caminhões ou em praças improvisadas, que candidatos apresentavam propostas, atacavam adversários e tentavam conquistar votos. No interior, principalmente, uma grande concentração política era acontecimento capaz de movimentar uma cidade inteira. Mas os tempos mudaram — e talvez a função do comício também tenha mudado.

 

Hoje, olhando para esses eventos, especialmente nas pequenas cidades, uma pergunta merece ser feita: quem ainda precisa decidir o voto realmente está presente nos comícios?

 

Minha percepção é que cada vez menos.

 

Quem comparece costuma ter algum vínculo prévio com aquele grupo político. São militantes, correligionários, candidatos proporcionais e seus apoiadores, lideranças comunitárias, prefeitos, vereadores, ex-prefeitos, servidores, empresários próximos ao grupo, familiares e eleitores que já possuem alguma simpatia pelo candidato.

 

É evidente que existem exceções. Há curiosos, pessoas acompanhando amigos e até eleitores genuinamente indecisos. Porém, aparentemente, o comício deixou de ser aquele grande espaço onde multidões iam simplesmente para ouvir candidatos e decidir em quem votar.

 

Uma pesquisa Genial/Quaest divulgada em julho deste ano ajuda a dimensionar essa transformação. Entre os entrevistados, 71% disseram que não pretendiam participar de eventos de rua em apoio a candidatos durante a campanha de 2026. Apenas 24% afirmaram que participariam.

 

É um número que merece atenção.

 

Se três em cada quatro eleitores sequer pretendem participar dessas mobilizações, onde está a maior parte do eleitorado que as campanhas precisam conquistar?

 

Provavelmente está em casa, trabalhando, navegando pelas redes sociais, assistindo a entrevistas, conversando com familiares, acompanhando notícias ou simplesmente distante do ambiente político mais intenso.

 

No interior existe ainda outra característica interessante. Os comícios acabam funcionando como uma espécie de encontro entre dois grandes movimentos: aqueles que estão no poder e querem permanecer nele e aqueles que estão fora e querem ocupar esse espaço.

 

Cada grupo tenta demonstrar força.

 

Por isso, muitas vezes, tão importante quanto aquilo que o candidato falou passa a ser quem estava presente. Quantos prefeitos compareceram? Quantos vereadores subiram no palanque? Qual liderança apareceu ao lado de quem? Houve adesões? Alguém mudou de grupo? A praça estava cheia?

 

A multidão passa a integrar a própria mensagem política.

 

Isso não significa que o comício tenha perdido importância. Pelo contrário. Talvez tenha apenas mudado de função.

 

Antes, o candidato reunia milhares de pessoas para falar diretamente com milhares de pessoas. Hoje, pode reunir algumas centenas para produzir uma mensagem destinada a dezenas de milhares.

 

Uma fotografia mostrando uma praça cheia percorre Instagram, Facebook e WhatsApp. Um trecho de discurso vira vídeo. A chegada de determinada liderança produz notícia. Imagens aéreas tentam transmitir força. Cada campanha seleciona seus melhores ângulos e, no dia seguinte, naturalmente, quase todas dizem ter realizado um “grande encontro”.

 

Nesse sentido, existe uma aparente contradição: o eleitor presente no comício talvez não seja necessariamente aquele que ainda precisa ser convencido. Ele pode ser parte da estratégia utilizada para convencer quem não estava lá.

 

E é justamente aí que está o ponto mais interessante.

 

Talvez estejamos medindo a força dos comícios da maneira errada. A pergunta deixou de ser apenas quantas pessoas foram ao evento. Precisamos perguntar quantas delas chegaram indecisas, quantas saíram convencidas e, principalmente, qual influência aquela mobilização conseguiu exercer sobre quem acompanhou tudo de longe.

 

Porque eleição não é decidida pela fotografia da praça.

 

É decidida pela soma silenciosa dos votos — inclusive daqueles que nunca pisaram em um comício.

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