Opinião

CANTO DA VAZANTE: MEMÓRIAS, RAÍZES E LEGADO DE AMOR

Foto de Maria Júlia Silva Neta (Maju)

 

A comunidade Canto da Vazante, localizada na zona rural de Guaraí–TO, possui cerca de 150 moradores e é formada por pessoas idôneas, simples e verdadeiras. Nesse lugar viveram meus avós in memoriam, Pedro de França e Francisca Gonçalves, carinhosamente conhecida como Mãe Chiquinha. Minha avó foi parteira, e é impossível contabilizar o número de pessoas que foram atendidas por suas preciosas mãos, instrumento de cuidado e serviço ao próximo. Como está escrito: “Servi uns aos outros, cada um conforme o dom que recebeu” (1 Pedro 4:10).

 

Ali também residiram meus estimados tios e tias: Miguel (in memoriam), Hilário (in memoriam) e aqueles com quem ainda temos o privilégio da convivência: Zé de França, Tico França, Valdimiro (in memoriam), Miguel (in memoriam) e Cícero, que ainda mora no Canto. Em Guaraí residem: Tia Maria França, Deusamar (in memoriam), Terezinha — nossa pastora, precursora do Evangelho na família —, Nenê, Toinha, Adenisa e minha mãe, Maria França, como gostava de ser chamada, mais conhecida como Alreniva.

 

O povoado do Canto da Vazante foi o meu recôndito, o lugar mais íntimo da minha adolescência, na casa de taipa dos meus avós. Havia fartura: sacos de amendoim, arroz, feijão e milho. No quintal, um pomar com laranja, lima, mexerica e laranja-lima. Os pés de coité ofereciam sombra, e seus frutos serviam como vasilhas e botijas para armazenar água.

 

Pela manhã, minha avó nos orientava a buscar leite na fazenda do Dr. Maurício. Ao retornar, o café nos aguardava: a farofa de carne de porco seca ao sol exalava seu aroma de longe; havia coalhada, com e sem soro, além de curau de milho e pamonha. Após o café, eu gostava de mergulhar nas águas geladas do Rio Água Fria. Ao voltar, já sentia o cheiro da comida pronta: arroz com feijão “trepa-pau”, torresmo, coentro-do-Pará, galinha caipira, ovos fritos e suco de laranja fresquinho.

 

As memórias do carinho dos meus avós permanecem vivas. Acolhiam a todos que chegavam, oferecendo pouso e alimento, conforme ensina a Palavra: “Não vos esqueçais da hospitalidade” (Hebreus 13:2). Na sala, havia muitas redes alvas e a presença alegre do meu avô Pedro de França, que contava histórias e alegrava a todos.

 

“Asa Branca”, apelido dado a ele por seu grande amigo Pacífico Silva, representava alegria, humildade e simplicidade. Ambos, nordestinos, apreciavam as músicas de Luiz Gonzaga, que embalavam momentos inesquecíveis.

 

As lembranças também trazem à memória o Sr. Catalão e sua família, o Sr. Zeca Groçal, o Sr. Sansão, Dinália, Dona Dica, toda a família Borges, a família Trajano e todos os moradores do Canto da Vazante, que fazem parte dessa história de convivência e união.

 

O Canto da Vazante integra a história do município de Guaraí, que celebrou recentemente seus 56 anos de emancipação política, marcados por significativo desenvolvimento social, agropecuário, pecuário e comercial. O município destaca-se entre os mais influentes economicamente e socialmente no estado do Tocantins, consolidando-se como referência regional.

 

Meus avós partiram para a glória, conforme a esperança cristã: “Combati o bom combate, acabei a carreira, guardei a fé” (2 Timóteo 4:7). A casa já não existe mais, mas as memórias permanecem vivas como um legado de amor, doação, comunhão e partilha. A família permanece, e com ela o privilégio da convivência. Seus nomes serão lembrados todos os dias e, em honra à sua memória, seguimos com alegria, procurando viver o exemplo de amor e generosidade que nos deixaram. Como diz a Escritura: “A memória do justo é abençoada” (Provérbios 10:7).

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