A sociedade gosta de dizer que se importa com as vítimas. Faz campanhas, publica frases de solidariedade, compartilha histórias de superação e repete que ninguém deveria passar por aquilo. Mas existe uma condição silenciosa nessa compaixão: a vítima precisa sofrer de uma maneira que não incomode ninguém. Enquanto ela chora em silêncio, aceita os abraços e tenta reconstruir a própria vida sem questionar ninguém, recebe acolhimento. O problema começa quando ela decide falar.
Quando a vítima denuncia, aponta responsabilidades, questiona quem deveria tê-la protegido ou simplesmente admite que não conseguiu perdoar, a mesma sociedade que dizia estar ao seu lado muitas vezes começa a julgá-la. “Está exagerando”, “quer atenção”, “isso já passou”, “vai destruir uma família”, “precisa aprender a perdoar”. De repente, a dor que antes despertava compaixão passa a ser tratada como inconveniência. Parece que a vítima é bem-vinda enquanto permanece fragilizada, mas se torna perigosa quando recupera a própria voz.
Talvez seja porque uma vítima silenciosa seja confortável. Ela desperta pena, mas não ameaça reputações. Já uma vítima que fala pode revelar aquilo que muita gente passou anos tentando esconder. Pode colocar pessoas diante das próprias omissões, destruir a imagem de alguém considerado “bom cidadão”, “ótimo pai”, “pessoa de família” ou “homem de respeito”. E, quando isso acontece, muitos preferem questionar a vítima a questionar aquele que está sendo acusado. É mais fácil perguntar “por que ela só falou agora?” do que perguntar “por que isso aconteceu e por que ninguém percebeu?”
Existe também uma romantização perigosa da superação. Esperamos que toda vítima transforme a própria dor em uma história bonita: que perdoe, siga em frente, sorria novamente e agradeça pelo aprendizado. Mas nem toda ferida precisa produzir uma lição bonita. Algumas deixam marcas. Algumas provocam raiva. Algumas levam anos para serem compreendidas. E nenhuma vítima deveria ser obrigada a perdoar alguém simplesmente porque o perdão deixa as outras pessoas mais confortáveis.
A verdade é que a sociedade não deveria exigir que uma vítima seja agradável para acreditar nela. Ela não precisa falar baixo, escolher palavras bonitas ou esconder a própria revolta para ser digna de respeito. Ela tem o direito de estar com raiva. Tem o direito de não perdoar. Tem o direito de falar sobre aquilo que aconteceu e, principalmente, tem o direito de não proteger a reputação de quem a feriu.
Talvez o que realmente incomode não seja a vítima falar. Talvez o que incomode seja o fato de que, quando ela finalmente levanta a voz, algumas pessoas são obrigadas a escolher entre proteger a verdade ou proteger a imagem que construíram de alguém. E é nesse momento que descobrimos quem realmente se importa com a vítima e quem apenas gostava da versão dela que sofria em silêncio.
A sociedade diz que quer que as vítimas tenham voz. Mas será que está preparada para ouvi-las quando aquilo que elas têm a dizer não é conveniente?
