Vida Margarida e a greve


Foto: Arquivo Pessoal - Segundo o autor, "a greve dos caminhoneiros vivenciada nos últimos dias expõe fortes traumas e conflitos da sociedade brasileira."

Publicado em 29/05/2018 15:55 - Categoria: Opnião

Por Danilo Santiago Barbosa.

 

“...Veja, meu bem, gasolina vai subir de preço / Eu não quero nunca mais seu endereço / Ou é o começo do fim ou é o fim...”

 

Com sublime verossimilhança, a canção escrita por Vital Farias, em 1980, e imortalizada por Elba Ramalho, retrata o momento crítico econômico dos anos finais de “chumbo”, bem como o momento atual da vida brasileira.

 

A greve dos caminhoneiros vivenciada nos últimos dias expõe fortes traumas e conflitos da sociedade brasileira. Fortes signos e valores são deturpados por uma minoria que visa utilizar a imensa maioria, como massa de manobra, a fim de atingir seus objetivos.

 

Reforma tributária, redução do valor da gasolina, redução do valor do gás de cozinha, corrupção... etc. quem é contra? Inclusive quem vos escreve é ferrenho subscritor destas bandeiras! Todavia, a elite não é boba! Ela bem sabe usar estas pautas populares, a fim de atingirem seus objetivos!

 

Ora, que dia o diabo aparece e diz: “olá, eu sou lúcifer!” Nunca. Desista. Portanto, há enorme astúcia neste movimento, dito popular.

 

Pois bem... O gigante acordou. Mas não foi o povo! E sim o golias “filisteu”! Haja vista, as forças que coordenam, organicamente, tais manifestações.

 

Alguém já viu manifestação de trabalhador? Sim... Viu sim. Mas e com apoio de patrão e empresário? Nunca! Perceptível o lock-out, (movimento grevista de empresariado) vigente no país, diga-se de passagem, proibido por lei (artigo 17 da Lei 7.783/1989), com caminhoneiros, como “bucha de canhão”, para chantagear um governo moribundo, aguardando apenas a hora do sepultamento, dos quais 30% são autônomos, e os demais, corporativistas, 70%, implantam um movimento paredista possível, apenas por conta do apoio patronal.

 

Ora, caro leitor, para não lhe cansar, serei didático no raciocínio, de modo que a contextualização, refuta falácias, retóricas e paixões ideológicas, urgindo graves evidências.

 

A sociedade foi construída com movimentos, ditos “populares”, e em até certo ponto foi, que por fim, defendeu interesses elitistas. A revolução francesa, no século 17, tem raízes no descontentamento da terceira classe, a base da pirâmide social, composta sinteticamente, por artesões, servos, camponeses, proletários e a burguesia (comerciantes, ainda que alguns ricos, não ascendiam na estrutura social), com o regime político vigente à época. Em apertada síntese, a 3ª classe sustentava as demais, a saber, nobreza e clero, por meio de impostos, sem a devida contraprestação. A burguesia, detentora de capital financeiro, com vistas ao rompimento desse regime e, sobretudo, subir no status social, utilizou valores e anseios populares, consubstanciados no lema LIBERDADE, IGUALDADE E FRATERNIDADE. Pois bem, feita a revolução com o sangue e suor dos “desdentados”, trabalhadores humildes e analfabetos, a burguesia toma o poder, destitui e mata o rei Luis XVI, em disputa interna, os burgueses girondinos (direita) temendo a radicalização popular, aplicam um golpe nos burgueses jacobinos (esquerda), instituindo a fase do Diretório, desembocando na Era Napoleônica, por meio do “18 de brumário”. Ora, ora... O que era para ser um levante do povo pelo povo, nada mais foi que a tomada do poder pela burguesia em detrimento da nobreza feudal!

 

No Brasil, não nos faltam exemplos. A revolução de 1932 urge do contragolpe da elite paulista, esta oligárquica e escravocrata, representante da velha república, marcada pela política café com leite, busca rebater o golpe sofrido por Getúlio Vargas, este apoiado por políticos mineiros, gaúchos e paraibanos, visando à retomada do poder, conclamam, ora, ora... A POPULAÇÃO, sob a bandeira patriótica e ufanista de uma nova constituição, com direitos sociais de pano de fundo. Todavia, os ditos “constitucionalistas” fracassaram e algumas mudanças sociais vieram mais tarde, das mãos do “governo inimigo”.

 

Pois bem, meus caros! Fechada a negociação do último domingo e atendida às reivindicações, alguma pauta social dos empresários... digo... “caminhoneiros”, foi ao menos posta à mesa? Redução da gasolina, gás de cozinha e outros anseios da esmagadora maioria? Vistos os 8 itens do principal acordo divulgado na última semana, ficou escancarado o interesse do baronato dos transportes. Conseguiram até golpear a lei das licitações, pondo a faca no pescoço do governo, obrigando-o a licitar junta à Companhia Nacional do Abastecimento (CONAB), até 30% sem licitação, isto é, poderá o governo, a partir de então, licitar fretes mais caros à administração pública. Além disto, conseguiram redução do DIESEL, tabelamento mensal do DIESEL, tabele mínima de frete, mais algumas negociatas.

 

Como dizia Marcelo Rezende, “agora eu te pergunto”, a qual senhor servirá tais medidas? O povão anda de diesel? A redução atingirá o preço dos produtos do consumidor final? Façamos as contas e vejamos os resultados...

 

O acordo feito ontem custará ao tesouro nacional, mais conhecido como POVO BRASILEIRO, 10 bilhões de reais que serão conseguidos via créditos extraordinários. Trocando em miúdos o linguajar contábil, o governo será autorizado pelo congresso nacional, a tirar da educação, saúde, segurança ou qualquer área que achar pertinente, recursos para bancar o subsídio do DIESEL, e tão somente deste combustível!

 

“Auto Lar... Mas isso beneficia indiretamente a população!” Gritam alguns de boa-fé. Porém, calculemos: Redução do DIESEL + Aumento do valor do Frete = MELHORIA DA MARGEM DE LUCRO. Só que com 2 agravantes à população... O primeiro já apontado, por meio do financiamento do fim da greve pelo próprio povo e segundo, por uma forte onda especulativa que já assombra os preços das bombas de combustíveis, prateleiras de farmácias e gôndolas de supermercados, ante os aplausos de uma parcela incauta ou condescendente com este acinte à população.

 

Pois bem, a falta de um amplo modal ferroviário de baixo custo, revisão do sistema tributário, a ampla oferta de crédito na última década que elevou a oferta de veículos de frete no país e a ruinosa política de preços da Petrobrás são assuntos que poderão ser abordados em outro momento, com suas especificidades. Já temos muito pano pra manga... Como disse Luiz Fernando Veríssimo, “No Brasil, o fundo do poço é apenas uma etapa.” Odorico Paraguassú, ilustre personagem da telenovela “O Bem Amado”, de 1973, talvez tenha vislumbrado o atual momento, dizendo ele: “Como dizia Castro Alves: ‘Bendito aquele que derrama água, água encanada, e manda o povo tomar banho’.”

 

Por fim, não confundamos alhos com bugalhos. O povo clama por mudanças e melhorias sociais, mas alguns aproveitam da carência da população e sua propensão à catarse, a fim de contemplarem suas pautas particulares, pois “essas feridas da vida amarga a vida”, e tomo licença de Vital Farias, para inserir uma interrogação no final da estrofe de abertura, da canção tema deste artigo: “Ou é o começo do fim, ou é o fim???”

 

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Danilo Santiago Barbosa é Agente Penitenciário e acadêmico do curso de Direito na Faculdade de Guaraí (IESC/FAG). E-mail: danilo.contabeis@uft.edu.br.

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