Um bolo indigesto


Foto: Arquivo pessoal - "Causa espanto mesmo é a tenra idade do aniversariante que aparece beijando o namorado, que aparenta ser um pouco mais velho."

Publicado em 23/11/2017 09:55 - Categoria: Opnião

Por Marcos André Silva Oliveira.

 

Viralizou pelas redes sociais o aniversário de uma criança de doze anos que comemora sua data natalícia com um bolo temático do cantor Pablo Vitar, nem sei se a grafia está correta, mas confesso que esse aspecto gramatical pouco me importa no momento. E também não é sobre o bolo que quero de fato problematizar, até porque essa seria uma discussão profunda demais para ser proposta em rede social. E o bolo poderia ser da Xuxa, do sítio do pica pau amarelo ou do Neymar, o tema em si não me agride.

 

Causa espanto mesmo é a tenra idade do aniversariante que aparece beijando o namorado, que aparenta ser um pouco mais velho. E antes que comecem os adjetivos degradantes, importante mencionar, que o texto não se realiza em nome de uma revolta seletiva, apenas em virtude de ser um “casal” homoafetivo. A escrita que hora se desenha se faz em virtude de o aniversariante ser uma criança, então, ainda que fosse um beijo heterossexual, a condição de infantilidade permaneceria intacta, e digna da proteção do Estado e dos órgãos de forma geral.

 

Foto: Divulgação/Internet

Imagem viralizou pelas redes sociais, provocando intensos debates.

 

No entanto, o Estado, embora tenha seus tentáculos ramificados por toda esfera social, não antecede o escopo da família, a responsabilidade dos pais em cuidar pela sanidade de uma criança em formação e que de fato não pode ser exposta a uma situação vexatória.

 

Preocupante a que ponto chegamos em nome de uma modernidade que nos é enfiada goela abaixo, porque qualquer opinião contrária te coloca no time dos retrógrados, fascistas, machistas, e todas as espécies de “istas” e “ismos” possíveis. E não pensem que estou aqui sacudindo a bandeira do moralismo, ou dos cidadãos que se veem como arautos da perfeição.

 

Sou sabedor de que o mundo desde seus primórdios é permeado por todas as espécies de sacanagens possíveis, e a sexualidade de cada um não é problema meu, isso é fato. Mas, quando se trata de crianças, isso não é uma questão de ponto de vista, é um aspecto que tange a legalidade preconizada pelo Estatuto da Criança e do Adolescente, Código Civil, Código Penal, e que deveria constar no código de ética de cada família, em sua maioria, tão ausente e  alheia a vida dos filhos.

 

Estarrece ainda as palavras ditas pelo aniversário em tom de normalidade, de fato, ali ele representa bem mais que uma criança em estado de vulnerabilidade afetiva, de abandono de valores incontáveis. O que se assiste no vídeo é a radiografia do esfacelamento familiar, do distanciamento dos pais, do alheiamento dos responsáveis.

 

Eu de fato não sei o que deve ser feito, mas algo é certo, ou a família retoma o protagonismo social ou inevitavelmente seremos levados ao caos sem precedentes.

 

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Marcos André Silva Oliveira é Professor, especialista em Literaturas de Expressão Portuguesa: Portugal, Brasil e África, além de Advogado, especialista em Educação e Direitos Humanos. E-mail: advogadomarcosandreoliveira@gmail.com

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