Precisamos de mais pontes e menos muros


Foto: Arquivo pessoal - Para a autora, é necessário construir mais pontes onde o preconceito erguer muros.

Publicado em 02/10/2017 11:20 - Categoria: Opnião

Por Lidy Lira.

 

Então ela me escreveu, dizendo que o que mais doía não era a cegueira, mas ser sempre "a menina com necessidades especiais". De fato acho que cada um de nós possa ter se sentido assim, numa ou noutra ocasião. Vou além: a maioria de nós, deficientes ou não, sente-se assim, em algum momento, principalmente quando algo nos marca ou demarca, nos exclui do suposto nicho da normalidade, impedindo-nos de ser tudo que poderíamos.

 

Ainda me sinto assim, pelo menos por algumas vezes. Transitam, aqui na cidade, várias outras mulheres cegas, muito diferentes de mim em idade, cor da pele, cabelos, tudo. E muitas pessoas me abordam, confundindo-me com elas. Mesmo que sejamos totalmente diferentes entre nós, fecham os olhos para a pessoa integral que somos, ficando apenas com aquilo que não temos, que é, no caso, o sentido da visão.

 

Não me vejo solitária nessa realidade. Muitos reclamam serem vistos apenas por seu câncer, sua orientação sexual, seu passado, suas tragédias, como se isso fosse um fator determinante, como se isso anulasse tudo o mais que são e têm. Geralmente, as experiências humanas são coletivas, ainda que sofridas. Apesar disso, não somos tão bons em erguer pontes coletivas.

 

Foi por isso que pedi permissão à autora da carta para dizer, sem diminuir sua dor, que ela é a de muitos, embora sob distintos nomes. Imagino que, o primeiro passo seja aceitar. Muitos não aceitam as coisas ditas negativas que nos acontecem. Absorvemos o dito do senso comum de que isso nos diminui, aniquila-nos como pessoas.

 

Ainda acham que eu sou um milagre quando digo que me sinto normal, rica e plena, mesmo sendo cega. Acham-me, quando muito, um exemplo de vida, pelo meu histórico, que não se abate por nada nesse mundo, afinal, é feliz, mesmo com a cegueira. Não percebem que a pior coisa que nos pode acontecer, é acreditar que aconteceu-nos a pior coisa que poderia acontecer.

 

Não entendem, na esmagadora parte do tempo, que não temos escolha. Eu decidi acolher minha deficiência e utilizar-me dela para desenvolver o máximo de humanidade possível; as barreiras que preciso quebrar, não são da deficiência em si, mas forjadas pelo preconceito, pela ignorância coletiva em torno das minorias que, são tantas, que compõem a maioria absoluta no planeta Terra.

 

O problema não é compor uma minoria; o problema é viver em uma sociedade despreparada para conviver com a diversidade, mesmo sendo ela uma constância cósmica, mesmo sendo ela uma realidade inalienável, mesmo ela existindo dentro de todos nós. Então, de vítima, por vezes, passo a pedagoga, uma espécie de orientadora que tenta aplainar o caminho para os que passam por mim, para os que precisam de mim, mesmo que nem imaginem isso.

 

Acho que, mais importante que ser vista ou não como "a menina das necessidades especiais", é importante não ser essa pessoa digna de pena, essa pessoa que se isola, essa pessoa que não questiona, que não tenta se incluir e não inclui quase ninguém. Eu sei, é difícil, para a maioria de nós. Eu sei como os rótulos grudam. Eu sei como, às vezes, para nos libertar, é preciso morrer, de tantas formas. Por vezes, trata-se apenas de escolher a dor que vale a pena, e se não parece uma escolha fácil, é porque não é.

 

É importante cercar-se de pessoas que não só sejam caridosas conosco, mas que nos valorizem, como indivíduos. E, para isso, antes de tudo, é preciso que acreditemos que temos valor. Mesmo sendo cegos; mesmo nos sentindo sujos pelo que fizemos ou pelo que fizeram conosco; mesmo não sendo compreendidos e toda a pá de coisas que ocorrem com as minorias, deficientes ou não. Construir esse espaço, esse retorno a si mesmo, é tão imprescindível e visceral, quanto perigoso e temerário.

 

O fato é que, quando nos conhecemos, para o bem e para o mal, quando aceitamos que a nossa diferença é só uma diferença, não obstante os encargos atitudinais que dela decorram, começamos a nos ver com objetividade, sendo, assim, mais fácil transferir essa percepção para os outros. Faz bem reverenciar a vida, gostar de pessoas além de nós mesmos. É muito difícil continuarem a nos tratar como "o deficiente", quando tratamos os outros como pessoas; quando elogiamos, nos importamos, acolhemos ou lhes damos espaço.

 

A melhor forma de impedir que nos diminuam à nossa deficiência é elevar nosso interlocutor à condição que queremos ser guindados. Mostrar que nos interessamos, que eles são pessoas especiais e importantes, porque são! Não existe esse "nós" e "os outros", não existe isso de "normal" e "anormal"; só existe o comum e o incomum, e nisso estamos mais próximos que imaginamos. Onde o preconceito erguer muros, tente levantar pontes. Com firmeza, se necessário; com palavras, se preciso, mas, sobretudo, com muita paciência e empatia.

 

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Lidy Lira é jornalista, deficiente visual e super antenada com o mundo do turismo e da tecnologia. E-mail: lidianelira1@gmail.com

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