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Mural dos nomes próprios


Foto: Arquivo Pessoal - Marcos André Silva Oliveira é Professor, especialista em Literaturas de Expressão Portuguesa: Portugal, Brasil e África, além de Advogado, especialista em Educação e Direitos Humanos.
Foto: Arquivo Pessoal - Marcos André Silva Oliveira é Professor, especialista em Literaturas de Expressão Portuguesa: Portugal, Brasil e África, além de Advogado, especialista em Educação e Direitos Humanos.

Publicado em 08/06/2018 09:39 - Categoria: Opnião

Por Marcos André Silva Oliveira.

 

“Pica no cu da Gabriela, vou chupar tua buceta, Paulo viado, Ana chupa xana, fii da rapariga, a diretora é gostosa, Jardison e Poliana, nois é nois o resto é buraco, o professor de química é pau na brecha, português é dos inferno, quero comer o rabo da Rafaela...”. Calma, não estou reproduzindo as pichações de um muro de São Paulo, nem fazendo a narração de uma nova versão de um filme sobre a favela no Brasil, menos ainda, me tornei escritor e fui contratado por uma produtora de filmes adultos. Não que não conheçamos de longa data todas essas palavras, mas, quando lidas assim em bloco, como se fossem foliões de um mesmo carnaval, soam grotescas, talvez agressivas demais, e acreditem, todas elas estão dispostas nas paredes de uma escola, pública, é preciso que seja frisado o adjetivo, porque parece que ele faz toda a diferença.

 

Olhei em volta e eles são muitos, provavelmente preencham bem mais que uma tese de doutorado, tem bunda, vagina e pênis para tudo quanto é lado. Eles se prestam como uma espécie de protesto? Expressão de arte? Sintomas de uma etapa da vida? Eu, posso até mudar de ideia, mas, hoje, isso me soa como fruto de uma geração que perdeu o valor, foi abandonada pela família, e entregue de forma global aos cuidados de uma escola pública sucateada, com professores mal remunerados, desmotivados e que assim, se moldaram a tônica da aprovação automática, afinal de contas brigar com o tal sistema é nadar contra um tsunami, e ao final de tudo, será sempre sua metodologia que estará errada.

 

Ainda mais preocupante, é que além de físico, esse mural de nomes próprios, é também ideológico, ele migra das paredes da coisa pública e é posto em prática pelos alunos em todos os aspectos, inclusive, contra os professores. É meio que natural se ouvir desde um belo, leve e simples “vai tomar no cu”, “vai se lascar”, ou um mais recente e sonoro “eu podia socar essa prova no priquito da sua mãe”, mesmo, a genitora não tendo absolutamente nada com o litígio.

 

E, o que pode o educador fazer com o adolescente, que de fato não é ruim, apenas passa por um momento difícil, ou uma dessas inúmeras explicações dispostas em artigos, livros, ensaios e teses de intelectuais que não dão aula, ou quando o fazem é nas salas das universidades, ambiente avesso aquilo que vivem os professores da escola pública no Brasil, que em sua maioria absoluta estão eivadas dos mais diversos vícios?

 

Esse mural tende a crescer e ganhar os palcos da vida, ao governo interessa um povo que cada vez sabe menos, entende menos e protesta levado pela onda do momento, e que a cada momento se renova sob a égide do hashtag qualquer coisa, ou quem sabe do somos todos macacos, marieles, caminhoneiros e sabe-se lá o que mais pode vir por aí, mas, o fato é que sempre estaremos sujeitos ao nascimento de uma nova onda. Afinal, somos frutos da geração que se intelectualizou nas redes sociais, lendo meias frases, absolvendo meios conceitos, e que tem ido à escola apenas para cumprir o rito dos duzentos dias letivos e das oitocentas horas...

 

Eu, sinceramente não sei onde tudo isso vai desembocar, mas, desconfio que não seja em um local com bom aspecto. É preciso que leiamos mais, nos informemos mais, mas, ao contrário disso, estamos cada dia mais protestando na base da destruição da coisa pública, ou por meio das genitálias, sejam nos murais das escolas públicas, nas falas, ou pelados pelas ruas, mostrando os peitos, bundas, como forma de protestar contra, contra... Bem, eu não sei contra o que mesmo, mas que esses protestos, com órgãos genitais crescem cada vez mais, isso é fato... E eu desconfio, que essa ideia nasce nos murais dos nomes próprios.

 

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Marcos André Silva Oliveira é Professor, especialista em Literaturas de Expressão Portuguesa: Portugal, Brasil e África, além de Advogado, especialista em Educação e Direitos Humanos. E-mail: advogadomarcosandreoliveira@gmail.com.

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