Opinião

O CRIME QUE AINDA ENCONTRA DESCULPAS

Foto de Giovana Evangelista da Silva

A violência doméstica não é um problema de casal. Não é uma “briga de marido e mulher”. Não é um desentendimento. É um crime. E enquanto parte da sociedade insiste em suavizar essa realidade com frases prontas, continuará sendo cúmplice de milhares de histórias interrompidas.

 

É revoltante perceber que, em pleno século XXI, ainda existam pessoas dispostas a defender o agressor antes mesmo de ouvir a vítima. Basta uma mulher denunciar para surgirem perguntas cruéis: "O que ela fez para provocar?", "Por que não saiu antes?", "Será que foi tudo isso mesmo?" Muitos religiosos chegam a dizer “seja sábia, honre seu casamento”, “ore pelo seu cônjuge”, “Não deixe o inimigo entrar em seu relacionamento”. Quase nunca perguntam ao agressor por que ele bateu. A culpa, de alguma forma, sempre parece encontrar o caminho até os ombros da mulher.

 

A violência doméstica também deixa órfãos de mães que ainda estão vivas. Filhos crescem assistindo à mãe ser humilhada, aprendendo que o medo faz parte do amor. Meninos podem crescer acreditando que mandar é um direito; meninas podem acreditar que sofrer é uma obrigação. Assim, a violência atravessa gerações, alimentada pelo silêncio daqueles que preferiram fingir que nada acontecia.

 

Nenhuma religião, tradição, cultura ou costume pode servir de desculpa para manter uma mulher presa ao sofrimento. Fé não exige submissão à violência. Perdão não elimina a responsabilidade pelo crime. E amor jamais pode ser confundido com dor.

 

Uma sociedade que se cala diante da violência doméstica não é apenas omissa; ela participa dela. Cada piada que ridiculariza mulheres, cada denúncia desacreditada, cada agressão ignorada e cada "isso é problema deles" fortalece quem agride. A indiferença também machuca. O silêncio também mata.

 

Chega de chamar feminicídio de tragédia quando, na verdade, ele foi anunciado por meses ou anos de ameaças ignoradas. Chega de esperar que a próxima manchete choque o país por alguns dias e depois seja esquecida. Não faltam leis. Falta coragem coletiva para romper o ciclo da violência antes que ela termine em um caixão.

 

Uma mulher não deveria precisar morrer para que a sociedade acreditasse que ela estava sofrendo. Enquanto continuarmos procurando justificativas para quem agride em vez de proteção para quem sofre, estaremos falhando como sociedade.

 

Porque nenhuma marca no corpo desaparece completamente quando a alma continua carregando cicatrizes. E nenhuma civilização pode se considerar verdadeiramente justa enquanto ainda houver mulheres que sintam mais medo dentro da própria casa do que nas ruas.

 

Nos primeiros sinais, denuncie. Não espere o primeiro soco para entender que você está vivendo uma violência. Nem toda agressão deixa hematomas; algumas deixam cicatrizes invisíveis, mas igualmente profundas. Violência também é humilhar, controlar, ameaçar, manipular, isolar dos amigos e da família, impedir de estudar ou trabalhar, controlar o dinheiro, invadir sua privacidade e fazer você acreditar que não vale nada.

 

Não se cale porque um familiar pediu para "aguentar mais um pouco". Não se cale porque alguém disse que "todo casamento tem problemas". Não se cale porque um líder religioso afirmou que você deve suportar tudo em silêncio. Deus jamais exigirá que uma mulher permaneça onde sua dignidade é destruída e sua vida está em risco.

 

Denuncie. Sua vida vale mais do que qualquer relacionamento, mais do que a opinião das pessoas e mais do que a falsa imagem de uma família perfeita. O silêncio protege o agressor; a denúncia pode salvar uma vida, talvez a sua, talvez a de outras mulheres que ainda encontrariam o mesmo homem no futuro. Nenhuma forma de violência é pequena quando ela rouba sua paz, sua liberdade e sua vontade de viver.

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