Opinião

EMENDAS PARLAMENTARES, O VENENO QUE MATA A DEMOCRACIA

Foto de Fernando Henrique Freire Machado

As emendas parlamentares são frequentemente apresentadas como instrumentos de descentralização de recursos e fortalecimento do pacto federativo. Contudo, sob uma análise mais honesta e crítica, revelam-se como um dos mecanismos mais corrosivos da democracia brasileira contemporânea. No Tocantins, o que deveria atender a demandas locais legítimas foi progressivamente distorcido, transformando-se em moeda de troca política, compra de apoio parlamentar e manutenção de currais eleitorais.

 

​O papel constitucional de deputados e senadores é claro: legislar e fiscalizar o Poder Executivo. O sistema atual de emendas, porém, subverte essa lógica ao transformar o parlamentar em um verdadeiro “despachante de luxo” de verbas públicas. Em vez de se dedicar ao debate de projetos estruturantes, reformas nacionais e controle dos gastos do governo, muitos representantes passam a medir sua relevância política pela quantidade de asfalto ou tratores que conseguem “levar” para suas bases eleitorais.

 

​Esse modelo desloca o critério do voto. O eleitor deixa de avaliar ideias, propostas e visão de país, passando a escolher quem distribui mais recursos, ainda que esses recursos não sigam critérios técnicos, planejamento ou prioridades sociais reais. O clientelismo substitui o debate público, empobrecendo a democracia e criando uma barreira intransponível para a renovação política: como um novo líder pode disputar uma eleição contra um cacique que dispõe de milhões para cooptar prefeituras no interior?

 

​Os números recentes evidenciam a gravidade do problema. Em 2025, o governo federal bateu o recorde de R$ 31,5 bilhões em pagamentos de emendas. Para 2026, a previsão é ainda mais alarmante: cerca de R$ 61 bilhões, praticamente o dobro. Trata-se de um volume astronômico de recursos públicos utilizados não como política de Estado, mas como instrumento de sobrevivência política, garantindo apoio no Congresso para pautas de interesse do governo de ocasião.

 

​Além do desequilíbrio eleitoral, a falta de transparência e a elevada discricionariedade na destinação dessas verbas transformam as emendas em um dos principais focos de corrupção e desperdício de dinheiro público no país. Obras inacabadas e convênios suspeitos tornaram-se rotina, enquanto as necessidades estruturantes do povo ficam em segundo plano diante da conveniência partidária.

 

​A democracia tocantinense só terá plenitude quando entendermos que asfalto e trator comprados com emenda não são favores, mas obrigação paga com o nosso suor. Enquanto aceitarmos o balcão de negócios, o Tocantins continuará sendo refém de um sistema que prioriza o poder de poucos em detrimento do futuro de todos.

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