Opinião

A FÉ DOS POBRES PROTEGE OS RICOS?

Foto de Giovana Evangelista da Silva

Antes de qualquer coisa, uma coisa precisa ficar clara: eu acredito em Deus. Não escrevo este texto para atacar a fé, ridicularizar quem acredita ou desmerecer qualquer igreja. A minha crítica é outra: é contra o uso da fé como instrumento de conformismo, principalmente quando esse conformismo beneficia quem já possui poder, dinheiro e privilégios.

 

A frase “a fé dos pobres protege os ricos” pode parecer exagerada. Mas, quando olhamos para a realidade, ela levanta uma pergunta que não deveria ser ignorada: será que, em alguns casos, ensinar o pobre apenas a esperar, aceitar e confiar não acaba sendo conveniente para quem não quer que nada mude?

 

Porque é muito fácil dizer ao pobre para ter paciência quando não é você quem está contando moedas para comprar comida.

É muito fácil dizer “Deus proverá” quando você não sabe se terá dinheiro para pagar o aluguel.

É muito fácil falar sobre aceitar as dificuldades quando as dificuldades não batem na sua porta.

 

E é justamente aí que precisamos separar fé de conformismo.

Acreditar em Deus não significa acreditar que devemos aceitar qualquer injustiça de braços cruzados.

 

O pobre pode orar e, ao mesmo tempo, exigir seus direitos. Pode acreditar em Deus e cobrar o governo. Pode confiar na providência divina e ainda procurar emprego, estudar, lutar por melhores condições e denunciar aquilo que está errado.

Uma coisa não anula a outra.

 

O problema aparece quando alguém utiliza a religião para convencer uma pessoa de que questionar sua própria situação é falta de fé.

Quando o sofrimento passa a ser tratado como destino inevitável.

Quando a pobreza é romantizada.

 

Quando aquele que tem pouco é ensinado a agradecer eternamente pelo mínimo, enquanto aquele que tem muito raramente é questionado sobre o excesso.

Isso precisa ser discutido.

 

Não porque a fé seja o problema, mas porque seres humanos podem utilizar qualquer coisa para justificar seus interesses, inclusive aquilo que deveria representar amor, esperança e responsabilidade.

 

E aqui existe uma contradição que não podemos ignorar: se a fé ensina a amar o próximo, como podemos usá-la para ignorar o sofrimento do próximo?

 

Se ensina solidariedade, por que deveríamos considerar normal que algumas pessoas tenham muito mais do que precisam enquanto outras não possuem sequer o básico?

 

Se ensina justiça, por que o pobre deveria ser aconselhado apenas a suportar, enquanto o poderoso não é aconselhado a repartir?

 

Não estou dizendo que todo rico é injusto. Também não estou dizendo que todo pobre é vítima. A realidade é muito mais complexa do que isso.

 

Existem pessoas que conquistaram sua riqueza honestamente, assim como existem pessoas pobres que trabalham, lutam e fazem tudo o que podem para mudar sua realidade.

 

Mas também existem estruturas de desigualdade. Existem privilégios. Existem abusos. Existem pessoas que utilizam o poder para benefício próprio. E fingir que isso não existe não é fé: é fechar os olhos.

E talvez seja justamente isso que mais incomode nessa discussão.

 

Porque enquanto discutimos se o pobre está orando o suficiente, talvez deveríamos perguntar se quem possui poder está fazendo a sua parte.

Enquanto dizemos ao trabalhador para confiar que “Deus vai abrir uma porta”, talvez também devêssemos perguntar por que tantas portas continuam fechadas para ele.

 

Enquanto ensinamos humildade para quem tem pouco, talvez devêssemos falar mais sobre responsabilidade para quem tem muito.

A fé não deveria ser usada para manter ninguém no seu lugar.

Eu acredito em Deus. E justamente por acreditar nEle, não consigo enxergar a fé como uma autorização para aceitar injustiças sem questionamento.

Minha fé não me impede de pensar.

Minha fé não me impede de questionar.

Minha fé não me obriga a chamar injustiça de destino.

 

Minha fé não me impede de olhar para a realidade e dizer: isso está errado.

E talvez algumas pessoas precisem ouvir isso.

Porque existe uma diferença enorme entre dizer a alguém “tenha fé” e dizer “tenha fé, mas também lute pelos seus direitos”.

Existe diferença entre ensinar esperança e ensinar acomodação.

Existe diferença entre confiar em Deus e usar Deus como justificativa para não fazer nada.

 

A esperança pode sustentar alguém durante uma dificuldade. Mas a esperança não deveria ser utilizada para impedir essa pessoa de lutar para sair dela.

 

O cristianismo, para mim, não pode ser reduzido a simplesmente aceitar tudo o que acontece. A fé não deveria produzir pessoas incapazes de questionar. Pelo contrário: deveria produzir consciência, responsabilidade e disposição para fazer o bem.

 

Por isso, quando vejo a frase “a fé dos pobres protege os ricos”, não penso imediatamente que estão atacando Deus.

Eu penso que estão fazendo uma provocação sobre como a religião pode ser utilizada por seres humanos.

 

E essa provocação merece ser respondida com inteligência, não com ofensa.

Porque defender a fé não significa defender tudo aquilo que é feito em nome dela.

 

E questionar a maneira como algumas pessoas utilizam a religião não significa deixar de acreditar em Deus.

Eu acredito em Deus. Mas acreditar em Deus não significa acreditar em tudo que os homens dizem em nome de Deus.

Essa diferença é fundamental.

 

Nenhum líder religioso, político, empresário ou pessoa poderosa deveria estar acima de questionamentos simplesmente porque utiliza palavras religiosas.

Fé não deveria ser escudo para corrupção.

Fé não deveria ser justificativa para exploração.

Fé não deveria ser usada para exigir silêncio de quem sofre.

 

E muito menos deveria servir para convencer o pobre de que ele precisa aceitar a própria miséria enquanto outros desfrutam de privilégios que jamais experimentará.

O pobre não precisa abandonar sua fé para questionar sua realidade.

 

Ele pode continuar acreditando em Deus e dizer não à injustiça.

Pode continuar orando e também lutar.

Pode continuar tendo esperança e também cobrar.

 

Pode continuar acreditando na providência divina e, ao mesmo tempo, exigir que seres humanos façam aquilo que está ao alcance deles.

Porque acreditar em Deus não nos transforma em espectadores da vida.

A fé pode ser esperança, mas não deve ser uma coleira.

 

E se alguém precisa que os pobres permaneçam conformados, silenciosos e satisfeitos com pouco para continuar vivendo confortavelmente, talvez seja hora de perguntar quem realmente está sendo protegido.

 

Talvez a pergunta não seja se a fé dos pobres protege os ricos.

Talvez a pergunta seja:

quem está se beneficiando quando o pobre é ensinado a aceitar aquilo que deveria estar lutando para mudar?

 

Essa é uma pergunta que não deveria assustar quem realmente acredita na força da própria fé.

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